Uma nuvem que se forma todo ano perto do vulcão Arsia Mons, em Marte, e chega a 1.800 km de comprimento, pode se originar de um processo nunca visto antes em uma atmosfera planetária. A descoberta é de um estudo publicado na revista Nature Geoscience.

A chamada Nuvem Alongada de Arsia Mons é acompanhada pela missão Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA). O fenômeno já chamava atenção pelo tamanho: quase duas vezes o comprimento do Reino Unido, segundo a ESA.

A nuvem se forma pela manhã, cresce rapidamente e some poucas horas depois.

Como a nuvem se forma sem poeira

Normalmente, nuvens se formam quando vapor de água encontra partículas suspensas no ar, como poeira, sal ou fuligem, e se condensa ao redor delas. Os pesquisadores descobriram que, no caso marciano, o vapor pode virar gelo diretamente, sem precisar desse apoio.

Os modelos usados antes não conseguiam reproduzir a formação da nuvem. Isso só aconteceu quando os cientistas incluíram essa possibilidade, chamada de nucleação homogênea, nas simulações.

Nunca vimos isso antes em uma atmosfera planetária. Foi totalmente inesperado.

A frase é do físico Jorge Hernández-Bernal, principal autor do estudo, em comunicado da ESA.

A explicação está na combinação entre a atmosfera fina de Marte e o tamanho do vulcão: quando o vento passa pelo Arsia Mons, de 20 km de altura, o relevo empurra o ar úmido para regiões mais altas.

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Nesse processo, a temperatura cai cerca de 30°C em dez minutos, criando umidade extrema, mais de 100 mil vezes os níveis normais da Terra.

É nesse instante que o vapor de água congela direto e dá origem à nuvem. Os autores ressaltam que o modelo ainda não reproduz tudo o que as sondas veem, então o estudo aponta uma explicação possível, mas não encerra a questão.

A descoberta pode ajudar a entender não só a atmosfera de Marte, mas também processos parecidos em outros planetas, inclusive fora do Sistema Solar.

O estudo chega poucas semanas depois de outra surpresa planetária: cientistas descobriram que Mercúrio encolheu mais do que se pensava, hipótese também revista com novos dados orbitais.

A exploração espacial segue em ritmo acelerado em outras frentes: em outubro, a SpaceX lançou a Crew-13 rumo à Estação Espacial Internacional, e o Brasil tenta ampliar sua presença no setor com o apoio da Agência Espacial Brasileira.