O calor associado às mudanças climáticas esteve ligado a cerca de 710 mil mortes no mundo em 2023, o maior número já estimado para um único ano, segundo relatório da revista The Lancet divulgado nesta terça (27). Pesquisadores pedem emergência sanitária global.

Do total de mortes por calor naquele ano, 71,5% foram atribuídas às mudanças climáticas de origem humana. O levantamento é a edição 2026 do Lancet Countdown, que reúne 146 pesquisadores de mais de 100 instituições em 30 países.

O que o relatório mostra de novo?

Coordenado pela University College London com a Organização Mundial da Saúde, o estudo compara a década seguinte ao Acordo de Paris (2016-2025) com os dez anos anteriores (2006-2015) e conclui que os danos à saúde se intensificaram num ritmo maior do que antes do acordo.

Entre 2016 e 2023, o calor esteve associado a uma média de 540,8 mil mortes por ano, das quais 68% atribuídas ao clima. Somadas, as mortes do período passam de 3 milhões, mais que malária e HIV juntas só em 2023.

"Uma década após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os danos das mudanças climáticas à saúde estão crescendo mais rapidamente do que a resposta mundial a eles", disse Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown.

Houve avanço nas energias renováveis e na preparação dos sistemas de saúde, segundo Romanello, mas isso ainda não compensa o agravamento dos impactos climáticos. O relatório também mediu outros efeitos: 51,8% da superfície terrestre global sofreu seca extrema em 2025.

A perda de produtividade do trabalho com o calor chegou a US$ 1,07 trilhão em um ano. Na América Latina, levantamento companheiro do Lancet Countdown com a Fiocruz mostrou que as mortes por calor na região mais que dobraram, para 13 mil por ano.

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O que acontece agora

Os pesquisadores do Lancet Countdown defendem que a crise climática seja formalmente reconhecida como emergência sanitária global, para que seus efeitos sobre a saúde entrem na prioridade dos governos.

O relatório não traz dado específico sobre o Brasil, mas levantamento publicado em junho já havia ligado o calor a 120 mil mortes no país em 20 anos.

No Brasil, o SUS já afirma estar se preparando para os impactos das mudanças climáticas, e profissionais de saúde já apontam o calor extremo como risco em áreas como a gestação.