Pesquisa encomendada pela fundação britânica Wellcome mostra que 89% dos profissionais de saúde materna ouvidos no Brasil estão preocupados com o impacto do calor extremo sobre recém-nascidos. O levantamento, divulgado nesta segunda (5), ouviu 1.000 profissionais em cinco países, entre eles Brasil e Reino Unido.

No Brasil, 77% acreditam que o risco para mães e bebês vai aumentar nos próximos cinco anos. Também no Brasil, 79% dizem que proteger gestantes e bebês deveria ser prioridade maior para quem faz política pública. Globalmente, 73% notaram mais complicações ligadas ao calor.

A pesquisa foi divulgada a um mês da COP31, marcada para novembro, na Turquia.

Revisões científicas já associam ondas de calor a um aumento de 16% a 26% na chance de parto prematuro, além de mais casos de baixo peso ao nascer. A gravidez também eleva a temperatura corporal, o que soma risco de pré-eclâmpsia em meses mais quentes.

O calor já bate recordes no país. Em setembro, Belo Horizonte flertou com a marca de 38,6°C.

O Brasil já soma um histórico pesado de mortes ligadas a ondas de calor, e as gestantes seguem fora da conta quando o país planeja a resposta ao clima.

Um estudo publicado em junho estimou 120 mil mortes no Brasil ligadas a ondas de calor entre 2000 e 2019, cerca de 0,6% da mortalidade total no período. O levantamento exclui óbitos por causas externas, como acidentes e violência.

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Em julho, o Ministério da Saúde anunciou um plano de R$ 9,8 bilhões para preparar o SUS para os impactos das mudanças climáticas, incluindo o El Niño. A pasta chamou o tema de uma questão de saúde pública que vai além do meio ambiente.

O que o Cidacs está descobrindo

O Cidacs, centro de pesquisa da Fiocruz Bahia financiado pela Wellcome, mantém uma coorte de 140 milhões de pessoas a partir do Cadastro Único, hoje também cruzada com dados climáticos. O objetivo é identificar quando a exposição ao calor pesa mais na gravidez.

"Nossa preocupação é estudar os efeitos do clima na saúde olhando com dois olhos: o efeito geral e os efeitos desiguais. O Brasil é uma sociedade desigual", diz o epidemiologista Maurício Barreto, coordenador do Cidacs.

"A gente sabia que existia uma associação, mas não se ela era mais forte quando a mulher é exposta no início ou no final da gravidez", afirma Enny Cruz, professora da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) e pesquisadora do Cidacs.

O que acontece agora

A Wellcome afirma que gestantes e recém-nascidos seguem fora dos principais planos de adaptação ao clima pelo mundo. Até lá, pesquisas como a do Cidacs tentam decidir em que momento da gravidez a exposição ao calor mais preocupa.