A endocrinologista Mari Cançado, 58 anos, descobriu um câncer de ovário em estágio avançado depois de oito meses de sintomas leves que pareciam apenas cansaço do dia a dia. O tumor já havia atingido fígado, peritônio e diafragma quando foi diagnosticado.
Os primeiros sinais surgiram como má digestão e cansaço maior que o habitual, em meio à rotina dividida entre trabalho, filhos, marido e os cuidados com a mãe, que tinha demência.
"Queria viver! A vida é nosso bem maior. Queria ver meus filhos se tornarem adultos, se formarem como pessoas…", conta Mari, sobre o momento do diagnóstico.
Como os sintomas passaram despercebidos?
O primeiro sinal foi um linfonodo aumentado na virilha, associado a uma infecção urinária, e os exames da época não mostraram alteração. Depois vieram mudanças no intestino, gases, perda de força muscular e dor lombar ao se deitar de barriga para cima.
Segundo a cirurgiã oncológica Jacqueline Menezes, diretora nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, o câncer de ovário pode causar sintomas que se confundem com problemas digestivos, o que atrasa a identificação da doença.
Um episódio de herpes-zóster motivou Mari a continuar investigando, e a biópsia do linfonodo confirmou a malignidade.
O diagnóstico, há 10 anos, foi de câncer seroso de alto grau, em estágio 4B. Depois de cirurgia, quimioterapia e uma recidiva, Mari está hoje em remissão, parte dos avanços recentes no tratamento do câncer.
O que é a mutação que também afetou a família dela
Desde 2018, Mari usa medicação oral após a identificação de uma mutação no gene BRCA2. "A doença segue controlada com o uso da medicação oral", diz ela, que pondera: "não posso dizer que estou curada, mas a doença está controlada."
Jacqueline Menezes explica que alterações nos genes BRCA podem existir só no tumor ou ser hereditárias. Quando identificadas, orientam o tratamento e permitem avaliar os familiares.
No câncer de ovário, pacientes com a mutação podem receber inibidores de PARP, medicamentos que interferem no reparo do material genético das células tumorais.
Depois do diagnóstico de Mari, um filho e uma sobrinha fizeram o teste genético e também têm a mutação BRCA2. Os dois são acompanhados por um especialista em oncogenética.
Menezes defende que o aconselhamento genético seja oferecido a todas as pacientes com câncer epitelial de ovário, independentemente da idade ou do histórico familiar.
Dados do Registro Hospitalar de Câncer de 2023 mostram a dimensão do problema: entre 855 casos de câncer de ovário com informação de estadiamento, 588 (68,8%) foram diagnosticados em estágio 3 ou 4, já em fase avançada da doença.
O que acontece agora
Mari recomenda que outras mulheres prestem atenção a mudanças no corpo e busquem atendimento quando os sintomas persistirem. "Insista no atendimento adequado. Se for preciso, busque uma segunda opinião", diz.
O acesso a medicamentos de alto custo contra o câncer também avançou nos últimos meses: o SUS passou a regulamentar a compra centralizada de remédios contra a doença, o que inclui parte das terapias-alvo usadas em casos como o de Mari.






























