Ler histórias e brincar com números na infância fortalece circuitos cerebrais de atenção, memória e raciocínio espacial, segundo especialistas em neurociência cognitiva ouvidas pelo Metrópoles. O efeito não depende de treino exaustivo, mas de interações cotidianas significativas com a criança.

A neuroplasticidade permite que o cérebro infantil adapte sua estrutura conforme as experiências vividas. Ao interagir com histórias, identificar padrões ou comparar quantidades, a criança fortalece circuitos dedicados à linguagem, à memória e ao foco.

Por que a leitura treina a atenção?

A leitura exercita a atenção sustentada porque exige que a criança mantenha informações na memória para acompanhar o enredo. "A leitura exige que a criança pare, acompanhe uma história, preste atenção aos detalhes", explica a psicopedagoga Virgínia de Castro, da Maple Bear Brasília.

Segundo ela, "com a prática, ela vai exercitando essa capacidade de permanecer concentrada por mais tempo".

Castro também alerta para o papel das telas: "o consumo passivo limita as oportunidades de aprendizado" quando substitui interações concretas no desenvolvimento infantil, com movimento, conversa e exploração espacial.

Como a matemática entra nessa fase?

Noções matemáticas se consolidam muito antes do ensino formal das operações. Classificar objetos por tamanho, reconhecer sequências ou dividir brinquedos já mobiliza circuitos cerebrais ligados a relações espaciais e de quantidade.

Jogos de tabuleiro e quebra-cabeças estimulam o planejamento e a busca por soluções. A neuropsicopedagoga Elaine Cristina, do Colégio Sigma, pondera que jogo e ensino tradicional são complementares, não equivalentes.

"O jogo oferece exploração, desafio e aplicação. O ensino sistemático organiza conhecimentos, apresenta conceitos e cria uma progressão que dificilmente ocorreria apenas pela descoberta espontânea", diz Elaine Cristina.

A ausência de estímulos pode afetar o repertório com que a criança chega à escola. Especialistas ressaltam, porém, que dificuldade de aprendizagem envolve vários fatores além do estímulo em casa: genética, sono, estado emocional e qualidade do ensino também pesam.

O tema ganha relevância num país em que 72% dos estudantes brasileiros ficam abaixo do nível básico em matemática, segundo o Pisa 2025.

O que fazer no dia a dia

A estratégia mais recomendada pelas especialistas é a mediação por perguntas, em vez de respostas prontas. Perguntar "como você descobriu isso?" ou "o que aconteceria se tentássemos diferente?" estimula a criança a pensar sobre o próprio raciocínio.

Atividades simples do cotidiano, como medir ingredientes ao cozinhar ou contar objetos pela casa, já ativam os mesmos circuitos neurais, sem exigir rotina de estudo nem pressão acadêmica.