O Festival MUDA, o Festival da Memória, reúne cerca de 40 bandas e solistas neste sábado e domingo (3 e 4) no Estádio Nacional de Santiago, num momento em que a canção de protesto chilena volta a ser testada pela política do país.

Os três palcos do evento batizam-se com nomes que resumem essa tradição: Joan Jara, viúva de Víctor Jara, e os veteranos Patricio Manns e Sergio Ortega. O pano de fundo é o governo do ultradireitista José Antonio Kast, que tomou posse em março.

Kast nunca escondeu simpatia por Augusto Pinochet e entregou os ministérios da Defesa e da Justiça a dois ex-advogados do ditador. Hoje ele analisa mais de 100 pedidos de indulto, a maioria de condenados por crimes da ditadura.

Em setembro, pela 1ª vez desde a redemocratização, em 1990, o governo não promoveu cerimônia pelo aniversário do golpe. Um decreto de abril já havia cortado quase 10% do orçamento do Ministério das Culturas, atingindo o Museu da Memória e o Museu Violeta Parra.

As políticas do governo já haviam provocado reação nas ruas. Em junho, estudantes chilenos se mobilizaram contra uma reforma do governo Kast.

Para a jornalista Marisol García, a força da canção de protesto vem de longe.

"Houve um momento especial, o da nova canção chilena, que teve Violeta Parra como principal inspiradora", diz ela. "Essa sensibilidade é provavelmente superior à média do pop, porque para os chilenos isso importa", completa.

A música segue sendo o jeito do Chile de discordar sem precisar de um líder único.

Seu livro, "Canción Valiente", saiu em 2013, levou o Prêmio Municipal de Literatura de Santiago e cobre três décadas, entre 1960 e 1989, de canção social e política no país.

No "estallido social" de 2019, voltaram a tocar "El Derecho de Vivir en Paz", de Jara, e "El Baile de los que Sobran", de Los Prisioneros.

Kast integra uma onda de líderes de direita que também atravessa a Argentina e outros países da região. A eleição deste fim de semana no Brasil é vista como um possível freio a esse movimento na região. O resultado sai neste domingo.