O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, em entrevista ao New York Times publicada na quinta-feira (5 de novembro), a primeira desde que fugiu do Brasil, que não teve ajuda de nenhum governo e que vai levar os detalhes da fuga "para o túmulo".

Ele deixou o Brasil na terça-feira (27 de outubro), cruzando a fronteira de Foz do Iguaçu (PR) com a Argentina antes de seguir para Miami, com escala no Equador.

Segundo Flávio, não havia plano prévio. A decisão veio depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, horas antes de a Polícia Federal cobrar a entrega de seus passaportes, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

"Ele olhou nos meus olhos e disse: 'Você já sabe onde eles querem chegar com isso, não é?'", contou Flávio sobre a conversa com o pai. Ele afirma ter respondido que estava preparado e sabia o que tinha que fazer.

Foi tudo obra minha. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo.

O senador disse que a decisão foi tomada com a esposa, Fernanda Bolsonaro, sem envolvimento do irmão Eduardo Bolsonaro, que já morava nos Estados Unidos. "Pode ter havido torcida, mas nada além disso", declarou.

O relato de Flávio contrasta com o que o NYT e o Wall Street Journal apuraram. Segundo os dois jornais, o avião que levou o senador, a esposa e as filhas a Miami foi providenciado por Jason Miller, assessor de Donald Trump.

Trump teria autorizado diretamente a entrada da família no país, segundo autoridades americanas ouvidas pelo NYT. Já o jornal argentino Clarín informou que Santiago Caputo, assessor do presidente Javier Milei, acompanhou a passagem do senador por Puerto Iguazú.

O avião usado na fuga custou R$ 414 mil. "Eu já sei que o desfecho final será a minha prisão", disse Flávio à reportagem.

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Na entrevista, o senador voltou a atacar o STF, classificando a corte como "politicamente motivada", citando em especial o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso da trama golpista que levou à prisão de Jair Bolsonaro.

A defesa de Flávio já havia pedido o afastamento de Moraes do caso, dias após a fuga.

O que pesa contra Flávio no STF

Flávio ainda não foi formalmente acusado de nenhum crime. Mas é investigado em três inquéritos na Suprema Corte: um sobre o financiamento do filme Dark Horse, e dois sobre indícios de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligados ao advogado Willer Tomaz.

Foi a ordem de Moraes para a entrega dos passaportes, na investigação sobre lavagem de dinheiro, que precipitou a fuga. Flávio não cumpriu o prazo estabelecido pela Justiça para devolver o documento.

O senador também repetiu, sem provas, que sua derrota foi "matematicamente impossível" e disse que vai contestar judicialmente a vitória de Lula.

O petista foi reeleito em 25 de outubro com 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% de Flávio — diferença de mais de 4,4 milhões de votos.

Mesmo sem provas de fraude, o senador manteve o discurso de contestação já nos Estados Unidos, fora do alcance imediato da Justiça eleitoral brasileira.

Sobre Trump, Flávio disse que o presidente americano agiu certo ao não se pronunciar sobre o resultado da eleição brasileira. "Ele não tomou partido, o que é a coisa certa a fazer", afirmou, agradecendo por poder permanecer no país.

O que acontece agora

Os três inquéritos contra Flávio seguem em andamento no STF, sob relatoria de Moraes, sem data prevista para conclusão.

O senador disse que pretende continuar atuando politicamente a partir dos Estados Unidos e espera que a permanência no país seja temporária, enquanto avalia contestar na Justiça o resultado que o derrotou.