Os governos Biden e Trump pediram várias vezes à SpaceX que ligasse ou desligasse o Starlink em diferentes países, segundo seis ex-autoridades dos EUA ouvidas pela Reuters. O pedido mais recente, feito a Musk por telefone, derrubou a velocidade da rede usada pela Ucrânia.
O padrão por trás do pedido mais recente
No governo Biden, os pedidos incluíram desligar o Starlink para impedir que milícias apoiadas pelo Irã, no Iêmen e no Líbano, se comunicassem pela rede. Também incluíram ativá-lo para dar acesso à internet dentro do Irã e na Ucrânia.
No governo Trump, o pedido foi o oposto: ligar o serviço no Irã após ataques dos EUA e de Israel em 2025 e 2026, na esperança de ampliar as comunicações de manifestantes contrários ao governo iraniano.
O caso mais recente seguiu a mesma lógica, mas na direção inversa: restringir, não ampliar. Musk limitou a velocidade da Starshield, versão militar do Starlink usada pela Ucrânia, em 14 de outubro.
O motivo, segundo reportagens americanas, foi a irritação dele e de Trump com os ataques ucranianos a refinarias russas. A conexão, que chegava a 400 quilômetros por hora, caiu para cerca de 161 km/h, prejudicando a interceptação de drones russos pela Ucrânia.
Trump ligou para Musk na quarta-feira (21) e pediu a reversão. O ministro da Defesa ucraniano, Yevhenii Khmara, confirmou neste sábado (24) que a velocidade voltou a superar 400 km/h.
"Este é mais um exemplo de como o diálogo direto e a postura firme do presidente ucraniano no mais alto nível produzem resultados", disse Khmara.
Publicidade
O que isso tem a ver com o Brasil
O episódio expôs uma dependência que não é só ucraniana. As Forças Armadas brasileiras também usam o Starlink comercial para comando e controle, sobretudo na Amazônia e em áreas de fronteira.
O governo federal firmou 12 contratos sem licitação com a empresa nos últimos 18 meses. A autonomia militar brasileira por satélite próprio depende do SGDC, lançado em 2017, que tem cerca de seis anos de vida útil restante.
Não há substituto em produção ou com lançamento programado, embora o financiamento do SGDC-2 já conste do orçamento de 2027.
O general reformado australiano Mick Ryan resume o risco de depender de uma rede comercial estrangeira. Segundo ele, aliados dos EUA "tendem a reagir com reservas de combustível maiores, comunicações redundantes e soberanas, produção doméstica de drones e mísseis e laços regionais mais firmes".
Outros países já buscam escapar dessa dependência: a Boeing testa um drone militar que driblaria o Starlink.
No Brasil, o caminho foi outro: a Anatel liberou espectro adicional à Starlink neste mês, ampliando, em vez de reduzir, a presença da empresa no mercado civil brasileiro.
O ponto em aberto
A normalização do episódio ucraniano não resolve a pergunta de fundo: o que acontece quando um país depende de uma infraestrutura crítica que pertence a uma empresa privada, sujeita a uma ligação de telefone?
Para a Ucrânia, a resposta veio em dias. Para o Brasil, sem satélite substituto programado para depois de 2032, a mesma pergunta ainda não tem resposta pronta.































