O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou nesta segunda-feira (19) toques de recolher parciais em cidades como Marselha e Denain. A medida vem depois de um fim de semana com mais de 500 mil manifestantes nas ruas, saques, incêndios e cerca de 2.400 detenções.

Ele não descartou decretar estado de emergência.

"Esses toques de recolher devem ser locais e parciais. Está fora de questão impor um toque de recolher em toda Paris", disse Lecornu a jornalistas, segundo o Valor Econômico.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu que as autoridades não previram a dimensão dos distúrbios e ofereceu renúncia. O presidente Emmanuel Macron recusou aceitá-la, mas cobrou explicações sobre falhas de prevenção.

A crise chega num momento em que o governo já não tinha como se dar ao luxo de um erro de cálculo.

Por que este governo é tão frágil?

Há cerca de um ano, o governo de Lecornu sobreviveu por pouco a duas moções de censura na Assembleia Nacional. A moção apresentada pela esquerda da La France Insoumise obteve 271 dos 289 votos necessários para derrubá-lo.

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Para garantir o apoio do Partido Socialista naquela votação, Lecornu propôs suspender a reforma previdenciária de 2023, que elevava a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos. Desde então, o governo opera sem maioria própria, dependente de acordos pontuais.

A onda atual de protestos tem origem na educação e no custo de vida, e já havia sido comparada à crise dos coletes amarelos por analistas. Os distúrbios também se dão em meio ao maior nível de dívida pública francesa em décadas.

O líder do partido conservador Republicanos, Bruno Retailleau, pressionou por estado de emergência, opção que Lecornu rejeitou por ora, preferindo restrições locais.

Já os prefeitos das maiores cidades do país cobraram explicações do governo sobre o que chamaram de falta de preparação das forças de segurança.

Os distúrbios ocorrem a seis meses da eleição para escolher o sucessor de Macron, o que eleva o custo político de qualquer passo em falso.

"Quem destruiu terá de pagar. Quem saqueou terá de ressarcir", disse Macron no domingo (18), prometendo reuniões nesta semana para ouvir reivindicações dos manifestantes. Os protestos pelo custo de vida já chegaram a outros 4 países europeus.

O ponto em aberto

Lecornu aposta em restrições pontuais em vez de um estado de emergência nacional, na esperança de conter a violência sem radicalizar ainda mais um Parlamento onde já não tem maioria.

Resta saber se os cerca de 60 mil policiais mobilizados no fim de semana, que o próprio governo admite não terem sido suficientes, darão conta de impedir uma nova escalada antes das reuniões prometidas por Macron.