O assessor especial de Assuntos Internacionais do presidente Lula, Celso Amorim, afirmou que o Escudo das Américas, coalizão liderada pelos Estados Unidos, tenta impor um "cerco" sobre o Brasil sob o argumento de combater facções como o PCC e o Comando Vermelho.

Em setembro, os EUA e 14 países da região alinhados a Trump assinaram acordo que classifica o PCC e o CV, com outras 22 organizações, como "ameaças compartilhadas". Prevê sanções como congelamento de bens e restrição de visto, e o Brasil não aderiu.

Agora, sim, nós sofremos ameaça. Veja bem, essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil em cerco, cercado com base em argumento falso, que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional. Na realidade, é um esquema de dominação absoluta.

disse Amorim, em entrevista ao canal Tutaméia, no YouTube.

A coalizão reúne presidentes alinhados a Trump, como Javier Milei e Nayib Bukele. Auxiliares diretos de Lula classificam a medida como "muito grave" e dizem que ela abre uma porta de entrada para ação militar, como ocorreu na Venezuela e na Colômbia.

Para o governo, os países da região querem manter boa relação com o Brasil, mas aderiram ao texto por motivos distintos. Milei, Bukele e Espriella assinaram por alinhamento a Trump; os demais, por estratégia, para obter recursos e evitar ação militar dos EUA.

Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Lula reagiu à articulação sem citar diretamente o Escudo das Américas. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse o presidente.

"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", completou o presidente. Neste ano, o governo Trump também classificou o PCC e o CV como organizações terroristas. Integrantes do governo Lula criticaram a "rotulação", que, segundo eles, não resolve o problema do crime organizado no Brasil.

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Celso Amorim discursa ao lado de autoridade chinesa em evento diplomático
Celso Amorim, assessor especial de Lula para assuntos internacionais — Foto: Agência Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 3.0 br)

Do outro lado, Flávio Bolsonaro, adversário de Lula no 2º turno, defende a adesão do Brasil à coalizão. Em 7 de outubro, o candidato disse: "Vou, com muita vontade e com muita honra, querer fazer parte do Escudo das Américas".

Para Amorim, o tarifaço aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros também é parte da mesma estratégia, com o objetivo de intimidar o presidente Lula em meio ao processo eleitoral brasileiro.

A Casa Branca aplicou, neste ano, duas rodadas de tarifas contra as exportações brasileiras. A primeira foi de 25%, segundo o entendimento do governo americano sobre práticas comerciais do Brasil.

A coalizão voltou a citar o PCC e o CV como alvo de sanções, com o Brasil seguindo de fora do grupo. Amorim já tinha feito gesto semelhante em setembro, quando entregou carta de Lula a Xi Jinping criticando a ingerência dos EUA na região.

O que acontece agora

O governo brasileiro vai acompanhar o tema pela Organização dos Estados Americanos (OEA), mantendo cooperação bilateral contra as facções e destacando as próprias medidas de combate ao crime organizado como alternativa à adesão ao Escudo das Américas.

Segue também em curso o impacto do tarifaço nas exportações brasileiras, tema do grupo de trabalho bilateral criado com os EUA em outubro.