O presidente Lula (PT) teve 56% dos votos válidos em favelas no 2º turno de 2026, contra 44% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo o Favela Dados. A vantagem de 12 pontos é o dobro da registrada no 2º turno de 2022.

No resultado geral do país, a margem foi mais apertada: 52% a 48% para o petista, que virou o resultado em Minas Gerais na reta final da apuração.

Em 2022, a diferença no resultado geral tinha sido ainda menor: 51% a 49%. É a menor distância já registrada entre dois candidatos num 2º turno presidencial, segundo o Favela Dados.

Os números mostram que a vantagem do petista cresce quanto mais pobre e mais distante do centro é o território, e que o padrão não é exclusivo das favelas: ele se repete, de forma ainda mais acentuada, em quilombos e terras indígenas.

Por que a diferença dobrou em relação a 2022

A diferença dobrou porque a vantagem relativa de Lula cresceu enquanto o resultado geral do país ficou estável entre as duas eleições. O Favela Dados cruzou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o mapeamento de favelas do Censo 2022, do IBGE.

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O projeto analisou cerca de 8 mil locais de votação identificados como favela. "Um local foi considerado 'de favela' quando fica a até 250 metros de uma favela mapeada pelo IBGE", explica Bruno Pantaleão, pesquisador do Favela Dados e doutorando na FGV-EAESP.

O padrão se repete em quilombos e terras indígenas

O padrão de votação majoritária em Lula se repete, de forma ainda mais forte, em territórios quilombolas e indígenas. Um levantamento da Ipse Global, também com dados do TSE, mostrou o petista com 74% dos votos em quilombos e 71% em terras indígenas.

Nos 495 territórios quilombolas mapeados, com 617.865 eleitores, Lula ganhou 1,2 ponto percentual em relação ao 1º turno. Nas 573 terras indígenas, com 559.257 eleitores, o avanço foi de 2 pontos.

O padrão já aparecia no 1º turno, quando o petista teve quase o dobro da média nacional nessas áreas. Já em municípios com mais eleitores evangélicos, o voto em Flávio disparou, movimento oposto ao observado nos territórios mais pobres.

Para a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, a diferença reflete narrativas opostas sobre o papel do Estado.

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"É nessa chave que os marginalizados, aqueles que percebem que não estão competindo em pé de igualdade, que precisam de um Estado mais presente, de políticas públicas mais estruturadas para melhorar suas condições de vida, se encontram mais bem amparados no ideário, na ideologia apresentada pelo candidato do presidente Lula", afirma a coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ.

Já o cientista político Murilo Medeiros atribui parte do resultado ao temor de perda de direitos sociais em caso de vitória de Flávio, discurso que, segundo ele, foi reforçado pela campanha de Lula nesses territórios.

O ponto em aberto

Os dois levantamentos usam a mesma fonte bruta, o TSE, mas chegam a números diferentes para as favelas: 56% no Favela Dados e 54,7% na Ipse Global.

A diferença nasce da falta de uma categoria oficial de "favela" nas urnas: cada projeto faz sua própria sobreposição entre seção eleitoral e Censo 2022, o que explica por que o resultado varia conforme a metodologia.