A Rússia denunciou neste fim de semana um ciberataque "muito potente" contra o sistema eleitoral em Moscou, durante suas eleições legislativas. No Brasil, a urna eletrônica completa 30 anos de uso sem registro de fraude comprovada, segundo o TSE.
A diferença entre os dois casos está na conexão com a internet.
Segundo Ella Pamfilova, presidente da Comissão Eleitoral Central russa, "durante toda a noite, literalmente sem interrupção, o sistema eleitoral sofreu um ciberataque muito potente".
Um grupo que se identifica como CikLeak diz ter invadido servidores para denunciar que a comissão criou um sistema de votação remota que permitiria fraude. O presidente russo, Vladimir Putin, acusou a Ucrânia de interferir na votação, sem apresentar provas.
A urna brasileira opera de um jeito estruturalmente diferente do sistema russo de voto remoto pela internet.
Por que a urna brasileira não pode ser hackeada à distância?
A urna não tem placa de rede, wi-fi nem bluetooth, e essa ausência de conexão é o pilar da sua segurança. Sem acesso externo durante a votação, um invasor não tem como atacar o sistema remotamente.
Depois que a votação termina, os resultados de cada urna são gravados em mídia removível e transportados fisicamente até os pontos de transmissão. Só ali os dados chegam à rede privada do TSE, isolada da internet pública.
O TSE também promove Testes Públicos de Segurança, com edições em 2021, 2023 e 2025, quando especialistas em tecnologia são convidados a tentar invadir o sistema. As vulnerabilidades encontradas são corrigidas antes da eleição oficial.
Se não há fraude, por que tanta gente desconfia?
Uma pesquisa Quaest de fevereiro de 2026 mostrou que 43% dos eleitores brasileiros desconfiam das urnas eletrônicas, mesmo sem nenhum caso de fraude comprovado desde a implantação, em 1996.
A principal crítica histórica é a ausência de um registro físico do voto, o que, segundo defensores do voto impresso, impediria uma auditoria independente pelo próprio eleitor. Essa tese sustentou a PEC 135/2019, que não obteve os votos necessários no Congresso e ficou arquivada.
Hoje, o sistema passa por cerca de 40 etapas de auditoria antes, durante e depois do pleito, com participação de partidos, órgãos públicos, universidades e sociedade civil. O Registro Digital do Voto permite recontagem sem intervenção humana, cumprindo o papel que o voto impresso teria.
A desconfiança que sobra não é exclusividade das urnas. A Meta aprovou 13 de 15 anúncios falsos feitos com IA sobre as eleições em teste recente, e a ALMG e o TRE-MG lançaram campanha contra a desinformação eleitoral às vésperas do primeiro turno.
O eleitor também precisa ficar atento ao próprio voto. Um erro comum na hora de votar para senador pode anular a cédula nas eleições de outubro.
O ponto em aberto
O Brasil chega às eleições de outubro com um sistema de votação sem fraude comprovada em três décadas, mas com quatro em cada dez eleitores desconfiando dele. A rejeição não caiu com as auditorias nem com os testes públicos de segurança.
O problema técnico parece resolvido, mas o problema não é mais de segurança, é de confiança. Nenhuma auditoria a mais convenceu quem já desconfiava.
Episódios como o da Rússia alimentam a mesma desconfiança à distância, mesmo quando os sistemas não têm nenhuma relação técnica entre si.





























