Os investimentos em inteligência artificial (IA) e as preocupações com a dívida pública dos Estados Unidos pressionam mais os juros globais de longo prazo do que a própria postura mais dura do Federal Reserve, o banco central americano, avalia o FGV Ibre nesta quinta-feira (22).

O instituto aponta uma euforia em tecnologia parecida com a de ciclos anteriores de investimento. Segundo levantamento citado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as hyperscalers americanas investiram US$ 425 bilhões em infraestrutura de IA em 2025.

A projeção é que esse valor chegue a US$ 800 bilhões neste ano, quase o dobro em dois anos.

Por que o FMI já trata o tema como risco global?

O FMI colocou o estouro da bolha de investimentos em IA no topo da lista de riscos para a economia mundial. O tema foi debatido na reunião anual do fundo com o Banco Mundial, em Bangkok, na semana anterior a 20 de outubro.

Segundo Myriã Bast, superintendente sênior da Pesquisa Bradesco, que acompanhou os encontros, o tom mudou em relação à reunião de primavera: a euforia com IA deu lugar à preocupação com o endividamento público.

"Acorda, governo federal. Nossos déficits estão começando a causar problemas realmente sérios", disse, em tradução livre, o presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink, em evento do Berlin Global Dialogue nesta terça-feira (21).

O déficit fiscal dos EUA está próximo de US$ 2 trilhões ao ano, segundo a fala de Fink.

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Fink defende, ao mesmo tempo, que desacelerar a construção de data centers teria efeito inverso ao pretendido. Para ele, frear a tecnologia agora, em vez de reduzir risco, encareceria a computação e pressionaria ainda mais a inflação.

Analistas como o ex-presidente do Fed de Nova York Bill Dudley avaliam que o efeito do boom de IA sobre o crescimento deve perder força em 2027, por restrição ao financiamento das empresas do setor.

Qual é o efeito para o investidor no Brasil?

O temor com juros e fiscal nos EUA já aparece no câmbio e na Bolsa brasileira. O dólar chegou a R$ 5,17 em outubro em dias de maior aversão a risco.

O rendimento do título do Tesouro americano de 5 anos tocou 5%, o maior nível desde 2007, depois de a inflação ao consumidor dos EUA subir 3,7% em setembro na comparação anual.

Esse movimento tende a reduzir o diferencial de juro entre Brasil e Estados Unidos. Isso pode mudar o fluxo de capital para cá e pressionar o dólar para cima.

O consenso das discussões em Bangkok aponta para mais duas altas de juros nos EUA, uma ainda neste ano e outra no início de 2027, além de petróleo a US$ 90 o barril.

A disputa entre os dois riscos já havia aparecido em matéria sobre a mesma aposta em IA que Wall Street comemora e teme. O alerta fiscal do FMI também já havia motivado cobrança do fundo por ajuste fiscal urgente em outros países.

O que acontece agora

O mercado financeiro acompanha o leilão de títulos do Tesouro americano e os próximos balanços das gigantes de tecnologia para medir se o ritmo de investimento em IA se sustenta.

No Brasil, o Ibovespa e o dólar já reagiram a notícias externas nas últimas semanas, e analistas esperam que o Fed sinalize o ritmo das próximas altas de juro até o fim do ano.