O risco-país da Argentina chegou a tocar 710 pontos durante o pregão de terça-feira (20), o nível intradiário mais alto em cerca de um ano, e fechou em 672. Na segunda (19), o indicador havia fechado em 675 pontos, maior nível do ano em fechamento.

Por que o risco subiu agora

O aumento reflete fatores externos e técnicos, não um problema imediato de caixa. A Argentina soma mais de US$ 30 bilhões em vencimentos de dívida no ano que vem, aponta levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O país mantém pouco mais de US$ 50 bilhões em reservas, e parte do valor pode ser refinanciada ou negociada diretamente com o FMI.

Parte da alta recente veio de fora da Argentina, avalia Daniel Marcatto, sócio e analista da consultoria Exploritas. A abertura das taxas dos títulos do Tesouro americano e o fortalecimento do dólar pressionaram os mercados emergentes como um todo.

"O crédito argentino tem um beta muito elevado", diz Marcatto. Na prática, quando o ambiente piora para os emergentes, os títulos argentinos tendem a sofrer mais que os dos vizinhos. O mesmo vale no sentido contrário, quando as condições financeiras globais melhoram.

Outubro também costuma ser um mês menos favorável a esse mercado. Fundos dos Estados Unidos tradicionalmente reequilibram suas carteiras no período, antes do início do novo ano fiscal, em novembro. A janela entre dezembro e abril costuma ser mais favorável aos títulos de mercados emergentes.

Houve ainda pressão de fluxos locais. Com a retomada das remessas de dividendos ao exterior, empresas argentinas passaram a vender títulos soberanos para levantar caixa, o que tirou do mercado um comprador importante.

O que muda no comércio com o Brasil

O Brasil segue como parceiro comercial relevante da Argentina, mas perde espaço. Dados de comércio exterior mostram que, no primeiro semestre de 2026, as vendas argentinas ao país cresceram apenas 4%, enquanto os Estados Unidos ampliaram a fatia com tarifas zeradas para produtos argentinos.

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Em julho de 2026, a Argentina exportou US$ 1,12 bilhão para o Brasil contra US$ 1,10 bilhão para os Estados Unidos, diferença mínima que ilustra a aproximação.

Os mesmos dados mostram que os americanos já respondem por 10,7% das vendas externas argentinas no ano, com alta de 34% em abril e salto de 86% no setor de energia.

O avanço é parte de um movimento maior. A tarifa dos EUA empurra o Mercosul inteiro a negociar com outros blocos, caso do acordo que a própria Argentina já fechou com Washington.

Em fevereiro, Argentina e Estados Unidos fecharam acordo que eliminou tarifas para 1.600 produtos argentinos e ampliou de 20 mil para 100 mil toneladas a cota de carne isenta de imposto.

Depois do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, Milei disse esperar "trabalhar juntos para que a Argentina e o Brasil continuem sendo grandes parceiros comerciais, culturais e políticos".

Dois em cada cinco carros vendidos na Argentina em 2024 vieram do Brasil.

O quadro mostra que a distância entre os dois países é grande mesmo na comparação regional. O risco-país do Brasil caiu ao menor nível desde 2020 justamente no mês em que o indicador argentino disparou.

A distância entre os dois vizinhos no custo de se financiar lá fora não era tão grande neste ciclo.

A disputa por espaço no comércio exterior argentino ocorre em paralelo a outro movimento regional. O acordo entre Mercosul e União Europeia já eleva a exportação agrícola da Argentina, abrindo outra frente de recursos ao país vizinho.

O que acontece agora

Os vencimentos mais pesados da dívida argentina se concentram em 2027, ano também de eleição presidencial no país vizinho. Até lá, o Tesouro argentino negocia com o FMI e com credores privados alternativas de refinanciamento.

O mercado acompanha se o governo de Javier Milei consegue conter a alta do risco-país antes de novembro, quando os fundos americanos encerram o rebalanceamento de carteiras que costuma pressionar emergentes em outubro.