A China reduziu sua posição em títulos do Tesouro dos Estados Unidos para US$ 618 bilhões em julho, o menor volume desde agosto de 2008, segundo dados do Tesouro americano divulgados nesta quarta-feira (16). O recuo reflete mudança na gestão das reservas por Pequim.

Ele também mostra o aprofundamento da rivalidade entre as duas maiores economias do mundo. No pico, em novembro de 2013, a China chegou a deter mais de US$ 1,3 trilhão em dívida soberana americana.

A distância entre os dois números, treze anos depois, mostra o tamanho da retirada: mais da metade da posição chinesa em Treasuries desapareceu no período.

Por que a China está vendendo os títulos dos EUA?

A China vende Treasuries porque diversifica reservas para ouro, títulos de agências e ações, num movimento acelerado pelo temor de sanções. Os Estados Unidos registram déficits fiscais elevados em meio a inflação mais alta.

Já a China enfrenta desaceleração do crescimento e pressões deflacionárias, mesmo acumulando superávits comerciais recordes.

"Uma tendência global de diversificação para o ouro e títulos de agências, além de outros ativos, como ações, especialmente com o boom da inteligência artificial", descreveu Wei Li, chefe de investimentos em múltiplos ativos da BNP Paribas Securities na China.

A redução se acelerou depois que os EUA congelaram as reservas russas, em 2022, após a invasão da Ucrânia. O temor em Pequim é que uma medida semelhante recaia sobre o país no futuro, o que torna os Treasuries um ativo politicamente mais arriscado.

Parte das posições chinesas também passou a ser mantida por instituições de custódia terceirizadas, como a Euroclear, na Bélgica, e a Clearstream, em Luxemburgo, o que dificulta apurar o volume real ainda em poder de Pequim.

O Brasil está fazendo o mesmo movimento?

Sim: o Banco Central do Brasil vendeu cerca de US$ 61 bilhões em títulos do Tesouro americano e ampliou as reservas em ouro, com compra de 42,8 toneladas do metal entre o fim de 2025 e o início deste ano.

No mundo todo, o ouro já responde por 27% dos ativos de reserva das autoridades monetárias, ante 22% em Treasuries, segundo o Banco Central Europeu.

A queda chinesa foi divulgada no mesmo dia em que Brasil e EUA tomaram decisões opostas sobre juros. O Fed elevou os juros pela primeira vez desde 2023, e o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte seguido.

Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, avalia que a desaceleração da atividade e uma inflação mais favorável ainda permitem um novo corte na próxima reunião do Copom. A ressalva é que ela ocorre logo após o segundo turno das eleições, o que aumenta a incerteza.

O que acontece agora

O mercado global acompanha se investidores estrangeiros vão continuar migrando de títulos públicos para ações americanas, movimento que o Financial Times já registrou impulsionado pelo boom da inteligência artificial.

No Brasil, o país segue com o maior juro real do mundo mesmo após cinco cortes seguidos da Selic, e a próxima decisão do Copom sai depois do segundo turno das eleições de outubro.