Uma equipe de pesquisadores brasileiros desenvolveu uma formulação antisséptica capaz de reduzir a resistência do fungo Candida parapsilosis, uma das principais causas de infecções em ambientes hospitalares. O estudo foi publicado na revista científica Pathogens e testado em laboratório com resultado positivo.
A fórmula combina clorexidina alcoólica a 0,5% com compostos orgânicos naturais, como eugenol e mentol. Em testes de laboratório, a combinação demonstrou capacidade de inibir e reduzir drasticamente a resistência do fungo.
Por que esse fungo preocupa hospitais
A Candida parapsilosis normalmente vive na microbiota humana sem causar dano. O problema aparece quando ela entra em contato com feridas, incisões cirúrgicas ou dispositivos implantados, como cateteres: aí pode provocar infecções graves.
O fungo tem grande capacidade de formar biofilmes em dispositivos médicos e superfícies, além de exibir resistência a medicamentos e a produtos desinfetantes. Nos hospitais, a contaminação costuma ocorrer de forma cruzada, pelas mãos dos profissionais de saúde.
Levantamentos em hospitais brasileiros já haviam dimensionado o tamanho do problema. Um estudo em hospital pediátrico registrou mortalidade de 30 dias de 59,6% entre pacientes com cateter no momento do diagnóstico da infecção.
Outro levantamento identificou formação de biofilme de intermediária a forte em quase três quartos dos isolados do fungo estudados em UTI — o que ajuda a explicar por que ele é tão difícil de eliminar de dispositivos médicos.
Como foi feita a pesquisa
A pesquisa é coordenada pela professora Regina Helena Pires, da Unifran (Universidade de Franca), com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Participam também a UFU (Universidade Federal de Uberlândia), o IMT-FM-USP (Instituto de Medicina Tropical da USP) e a Universidade do Minho, em Portugal.
"Esses microrganismos são resistentes aos fármacos e muitos acabam sendo resistentes também aos antissépticos e aos desinfetantes, por isso é tão importante desenvolver um produto que seja eficiente na eliminação desse fungo", afirma Pires.
As amostras de fungo usadas nos testes in vitro foram obtidas das mãos de 60 profissionais que trabalhavam em Unidades de Terapia Intensiva pediátrica e oncológica.
A clorexidina a 0,5% e o etanol a 70% já figuram entre os agentes mais eficazes contra o fungo em testes de superfície; a novidade é a associação com fitoterápicos.
"Um profissional da saúde precisa higienizar as mãos muitas vezes ao dia e isso acaba causando o ressecamento. A composição que nós estamos desenvolvendo traz componentes de óleos essenciais justamente porque esses fitoterápicos também ajudam a hidratar a pele", explica a pesquisadora.
A pesquisa se soma a outros projetos brasileiros com apoio da Fapesp na fronteira da saúde. Entre eles, o estudo sobre a proteína SDC4 no combate ao câncer e o dispositivo que detecta anticorpos da gripe aviária em 6 minutos.
Também está nessa lista a iniciativa que transforma smartwatches em ferramenta de diagnóstico precoce.
O que acontece agora
Os pesquisadores seguem com avaliações usando o nematódeo Caenorhabditis elegans e testes em pele de porco. Em outubro de 2026, a equipe viaja a Portugal para realizar microscopias de varredura e ensaios de imunofluorescência na Universidade do Minho.





























