Vídeos virais nas redes sociais mostram criadores de conteúdo recriando visualmente os ingredientes de salgadinhos, refrigerantes e doces industrializados, numa tentativa de expor a composição desses produtos. Especialistas dizem que a prática ajuda a informar, mas pode conter imprecisões técnicas.
O primeiro alerta é sobre a quantidade dos ingredientes. No Brasil e nos Estados Unidos, a norma de rotulagem lista os componentes do de maior para o de menor quantidade, mas não informa a proporção exata de cada um.
Por que os vídeos podem enganar
"Isso vai fazer sentido para um refrigerante, algum salgadinho, que tem uma correspondência visual, mas para vários outros não", diz Laís Botelho, professora do programa de nutrição e saúde coletiva da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), no campus de Macaé.
Para Botelho, o formato tem potencial, mas peca pela falta de contexto. "Eu não acho que essa visualização é ruim, eu acho que até usaria ela para informar, ou seja, tem potencial. Mas falta [nos perfis] uma contextualização", diz a professora.
Já Patrícia Mello Silva, mestre em gestão ambiental pela EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP), com pesquisas na área de alimentação, defende o valor pedagógico dos vídeos. Segundo ela, os conteúdos "ilustram ao consumidor o que tem no rótulo".
Mello Silva pondera, porém, que o que aparece na tela pode ser só uma representação dos ingredientes, sem que sejam de fato os produtos ali inseridos. "Dificilmente a população olha para aquela listagem de ingredientes, que às vezes são muito difíceis de ler", completa.
Como quem faz esse tipo de vídeo se defende
A criadora de conteúdo identificada como Science Snitch, que faz esse tipo de vídeo e prefere ser chamada só pelo nome da conta, disse à Folha que seu objetivo é "explicar a ciência por trás da alimentação".
Segundo ela, o processo de criação é ler os ingredientes nos rótulos e cruzar essa listagem com as informações nutricionais.
Esse cruzamento, segundo a própria Science Snitch, permite chegar a "estimativas bastante precisas de algumas quantidades".
Nos Estados Unidos, um relatório do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) de 2023 mostra que os alimentos ultraprocessados compõem cerca de 55% do consumo diário de pessoas com um ano ou mais de idade.
O que o consumidor pode checar sozinho
No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) exige a rotulagem nutricional frontal, que sinaliza quando um alimento tem alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. É uma ferramenta que dispensa a reconstrução visual dos vídeos.
Substâncias como maltodextrina e gordura hidrogenada costumam ser citadas como marcadores de ultraprocessamento, já que não são usadas em preparações caseiras. O tema já apareceu em levantamento que apontou que 79% dos alimentos vendidos como "fit" no Brasil são, na verdade, ultraprocessados.
A Anvisa também age diretamente sobre produtos problemáticos. Recentemente, a agência proibiu e recolheu do mercado a bebida proteica NotShake Protein, num exemplo de fiscalização que os próprios vídeos não substituem.
O fenômeno dos vídeos de checagem alimentar acompanha uma tendência maior de consumo de conteúdo curto nas redes, tema também tratado em reportagem sobre como a dopamina influencia os vícios digitais.





























