Só 4,6% dos 6.706 transplantes renais feitos no Brasil em 2025 foram em crianças, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O país teve 315 transplantes pediátricos no ano, com cerca de 49 mil pessoas na fila por um órgão.
O obstáculo começa antes da fila de espera: entre crianças pequenas, a diferença de tamanho entre o órgão de um adulto e o corpo do paciente agrava a falta de doador compatível. A explicação é da cirurgiã pediátrica Karin Schultz.
Especialmente se estamos falando de uma criança muito pequenininha, a gente não consegue colocar um órgão de um doador adulto muito grande.
Diante desse limite, o transplante com doador vivo, geralmente um dos pais, vira a alternativa mais viável para os pacientes mais novos.
Um doador que estava em casa
Foi o que aconteceu com Felipe Oliveira Costa, morador da Praia Paulistinha, na zona sul de São Paulo. Aos 7 anos, ele desenvolveu cirrose hepática após reação a um medicamento em 2025 e recebeu, meses depois, parte do fígado do próprio pai.
"Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias", disse Abimael Maurício Oliveira Silva, pai de Felipe e doador do fígado.
O procedimento foi feito no Hospital Sírio-Libanês, após o menino ficar internado no Hospital Menino Jesus. O cirurgião José Sampaio, do Hospital Pequeno Príncipe, explica que a porção do fígado doada por um adulto é pequena fração do órgão, sem grande risco para o doador.
Por que as famílias recusam
As famílias recusam a doação, segundo a ABTO, principalmente por não aceitar o diagnóstico de morte encefálica, por convicção religiosa e por medo de mutilação do corpo. Em 2025, essa recusa familiar chegou a 45% no país como um todo.
A raridade de casos elegíveis soma-se à dificuldade do tamanho certo. Só 4,6% dos transplantes renais do país em 2025 foram em crianças. Em Goiás, um bebê de 29 dias virou o doador mais jovem do estado.
O que acontece agora
A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e o Ministério da Saúde capacitaram 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026 para melhorar a comunicação com famílias no momento da doação. Do total, 933 são médicos, treinados para o diagnóstico de morte encefálica.
Quem quiser doar pode registrar a intenção pela internet, como já fazem em Minas Gerais.





























