O governo lançou, em 25 de setembro, a terceira fase do Desenrola, programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas. Desta vez, a União vai comprar carteiras de dívida inadimplida em leilão, com desconto mínimo de 90% repassado ao consumidor.
O desenho é novo porque o histórico do programa vem encolhendo. A 1ª fase do Desenrola renegociou R$ 53 bilhões, beneficiando 15 milhões de pessoas em mais de 8 milhões de operações.
Já a 2ª fase renegociou apenas R$ 22 bilhões, para 10 milhões de pessoas, em 5,5 milhões de operações. Foram R$ 31 bilhões a menos que na rodada anterior, mesmo com o país batendo recorde de inadimplência no período.
Na 1ª e na 2ª fases, credor e devedor negociavam diretamente, sem intermediação. Na 3ª, o governo entra como comprador: adquire a dívida com desconto e repassa o benefício obtido no leilão a quem deve.
O que os economistas chamam de risco moral?
Risco moral é o termo econômico para quando uma medida incentiva comportamento irresponsável. Aqui, o temor é que o consumidor atrase pagamentos de propósito, esperando um novo desconto do governo no futuro.
Especialistas também apontam "passivos ocultos" num ano em que a meta do governo é déficit zero. Se o desconto no leilão for baixo, poucos bancos vendem a carteira. Se for alto, o custo para a União sobe.
A União estima em R$ 15 bilhões o custo de comprar as carteiras de dívida, com recursos previstos nos orçamentos de 2027 e 2028.
Esse valor entra na conta de R$ 42,3 bilhões que o Orçamento de 2027 precisará ajustar por causa das medidas anunciadas antes da eleição.
Analistas de mercado classificam o Desenrola 3.0 e a proibição das bets, anunciados na mesma semana, como medidas de caráter eleitoral, lançadas a dias do 1º turno.
Os mesmos especialistas reconhecem alívio de curto prazo para quem deve, mas avaliam que o endividamento tem raízes mais amplas: juros altos, renda baixa e preço dos alimentos, fatores que o programa não ataca diretamente.
O ponto em aberto
A pergunta que o histórico do programa deixa em aberto é se o modelo de leilão realmente resolve o que fez a 2ª fase render menos que a 1ª, ou se o risco moral que os economistas apontam vai se repetir numa terceira rodada.
O calendário só vai responder isso aos poucos: chamamento de propostas em novembro, entrega dos credores em dezembro, homologação em janeiro e início do repasse do desconto em fevereiro de 2027.





























