Mais brasileiros decidem não ter filhos, e a escolha traz a dúvida sobre quem cuidará deles na velhice. O percentual de mulheres de 50 a 59 anos sem filhos subiu de 10% para 16,1% entre 2000 e 2022, segundo o Censo do IBGE.

A decisão aparece na história da psicóloga Lara Vieira, de 27 anos. Ela atendeu uma paciente idosa que vivia uma solidão afetiva profunda, mesmo tendo filhos.

Depois do atendimento, Vieira fechou um pacto com a melhor amiga. Se nenhuma das duas estiver casada aos 65 anos, as duas vão morar juntas.

O Brasil que envelhece sem geriatra suficiente

  • 16,1%das mulheres de 50 a 59 anos não têm filhos, ante 10% em 2000 (Censo)
  • 1,57filho por mulher em 2023, abaixo dos 2,1 necessários para repor a população
  • 33 mibrasileiros com 60 anos ou mais em 2023, quase o dobro de 2000 (15,2 mi)
  • 3,1 milgeriatras no país, quando a OMS recomenda 1 para cada mil idosos

Fonte: IBGE (Censo 2022 e projeções) e A Voz do Idoso · verificado em 27/09/2026

Seria muito mesquinho colocar alguém no mundo já pensando que vai ser uma pessoa para cuidar de mim. Isso nunca foi algo que imaginei fazer.

A frase é de Vieira, que atua hoje no atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Ela planeja cuidar dos próprios pais, se for necessário.

Para a psicóloga, o problema não é cuidar de alguém na velhice. É ter um filho pensando nele como um plano de cuidado futuro.

Segundo o cientista social Jorge Félix, professor de gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), a ideia de que filho garante cuidado no futuro é uma construção cultural que não resiste à rotina de trabalho atual.

"Hoje o mundo não contempla mais isso. Muitos filhos, mulheres e homens, têm que trabalhar muitas horas por dia, em uma escala 6x1, em que mal têm tempo para dormir", diz Félix.

Por que a taxa de natalidade continua caindo?

A taxa de natalidade cai porque fatores econômicos, culturais e educacionais mudaram junto com o papel da mulher no mercado de trabalho. A fecundidade brasileira, de 2,32 filhos por mulher em 2000, caiu para 1,57 em 2023, abaixo do nível de reposição populacional.

O IBGE projeta que a taxa recue ainda mais, a 1,44 filho por mulher em 2040, e que a população brasileira pare de crescer já em 2041.

O fenômeno já derruba recordes regionais. O Paraná vai ter mais idosos do que crianças em 2027, 12 anos antes da média nacional.

Quem vai cuidar de quem não tem filhos?

Quem não tem filhos tende a recorrer a cuidadores contratados, planos de saúde, instituições de longa permanência ou acordos informais com amigos, como o de Vieira.

O Brasil soma 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e só 3,1 mil geriatras para atendê-las. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um geriatra para cada mil idosos, patamar que o país está longe de alcançar.

Apenas 6,6% das instituições de longa permanência (ILPIs) são públicas, segundo levantamento do site A Voz do Idoso. A oferta de leitos é de 0,4 para cada mil idosos.

Boa parte do cuidado na velhice ainda depende do bolso e da rede pessoal de cada um, não de uma política pública consolidada.

Parte da resposta a esse gargalo vem do mercado. A chamada economia prateada, formada por serviços voltados a idosos, cresce no país, mas ainda concentra os cuidados em quem pode pagar por eles.

A TV Sim Brasil já mostrou como famílias avaliam a escolha entre manter o idoso em casa ou levá-lo a uma instituição, decisão que fica mais difícil sem filhos para dividir a tarefa.

O que acontece agora

A Política Nacional de Cuidados já é lei desde dezembro de 2024 (Lei 15.069) e foi regulamentada em julho de 2025 pelo Decreto 12.562, que define diretrizes e governança do Plano Nacional de Cuidados.

A oferta de cuidadores formados e de vagas em instituições públicas, porém, ainda não acompanha o ritmo do envelhecimento da população.