O jornalista e escritor Zuenir Ventura, autor de "1968" e "Cidade Partida", morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), a causa foi pneumonia, e a morte foi confirmada pela família.

Ventura começou no jornalismo como arquivista, em 1956, na Tribuna da Imprensa, e se tornou repórter depois de escrever um artigo sobre o escritor Albert Camus.

Passou por redações como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil, quase sempre em cargos de chefia.

Ao longo de sete décadas, ele construiu uma carreira em que a apuração jornalística virava matéria-prima de literatura. Essa combinação levou o presidente da ABL, Merval Pereira, a resumir o que ele representava para a categoria.

"Zuenir Ventura era o jornalista que todos queríamos ser", disse Merval Pereira, em nota da ABL, que o descreveu como "culto, generoso, repórter e comentarista, editor e redator, chefe e orientador, intelectual e popular, professor e aluno".

Zuenir foi eleito para a Cadeira 32 da ABL em 30 de outubro de 2014, sucedendo Ariano Suassuna, e tomou posse em 6 de março de 2015. Era o sétimo ocupante da cadeira.

Seu livro mais vendido, "1968 — O Ano que Não Terminou", lançado em 1988, retrata os eventos políticos, culturais e sociais daquele ano no Brasil. A obra vendeu mais de 400 mil exemplares e inspirou a minissérie "Os Anos Rebeldes", da TV Globo.

Outro marco de sua carreira foi "Cidade Partida", de 1994, vencedor do Prêmio Jabuti. O livro nasceu de meses de apuração com moradores de Vigário Geral, na zona Norte do Rio.

A obra foi motivada pela chacina de 21 pessoas em agosto de 1993, cometida por um grupo de policiais militares em represália à morte de colegas envolvidos no tráfico de drogas.

O próprio Zuenir viveu o peso político do seu ofício. Foi preso em dezembro de 1968, após a decretação do AI-5, e passou três meses na prisão, dividindo a cela com o psicanalista e escritor mineiro Hélio Pellegrino.

Nascido em Além Paraíba (MG), em 1931, filho de um pintor de paredes, Zuenir trabalhou como contínuo, faxineiro de bar e balconista de camisaria antes de estudar à noite e se formar em línguas neolatinas no Rio de Janeiro.

O ponto em aberto

Livros como "Cidade Partida" nasceram de meses de imersão em uma única história, um tipo de apuração que depende de tempo e de redações dispostas a bancá-lo.

Zuenir deixou essa tradição documentada em suas obras. A pergunta que fica é quem, nas redações de hoje, ainda tem o tempo que ele teve.

O velório de Zuenir Ventura acontece nesta quarta-feira (23), na sede da ABL, no Centro do Rio de Janeiro. O enterro será no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista.