O papa Leão XIV chegou à França nesta sexta-feira (25) para a primeira visita papal ao país em quase 20 anos. A última foi a de Bento XVI, em 2008. A viagem de 4 dias inclui encontro com sobreviventes de abuso sexual cometido por padres.
O tamanho do problema que a viagem tenta encerrar
O gatilho da crise é o relatório de 2021 da Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja (Ciase), presidida por Jean-Marc Sauvé. O documento de 2.480 páginas apontou 330 mil menores vítimas de abuso no meio eclesial francês desde 1950.
Em 216 mil desses casos, o abusador foi um padre, diácono ou religioso. A comissão estimou entre 2.900 e 3.200 padres abusadores, e documentou décadas de indiferença da Igreja com as vítimas até o início dos anos 2000.
É essa sombra que Leão tenta encerrar num roteiro de quatro dias por Paris, Lourdes e Metz, com direito a missa ao ar livre perto da Champs-Élysées que já reuniu 600 mil inscritos.
Quem é o papa que assumiu a missão
Leão XIV, o americano Robert Francis Prevost, foi eleito em maio de 2025, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Antes disso, passou décadas em missão no Peru, país do qual também tem cidadania.
Ele chefiou o Dicastério para os Bispos, o setor do Vaticano que escolhe quem vira bispo pelo mundo. Neste ano, também avançou o processo de canonização do padre Júlio Maria, em Minas Gerais.
A viagem tem ainda um capítulo de política internacional: Leão discursa a Emmanuel Macron, que neste mês já alertou sobre uma escalada da guerra híbrida da Rússia contra a Europa, a líderes europeus e à Unesco.
A entidade cultural da ONU enfrenta déficit orçamentário desde que os EUA saíram dela em 2025.
O papa deve repetir lá o alerta que já fez no Vaticano na véspera da viagem: a inteligência artificial pode beneficiar a humanidade, mas cria "novos perigos para a segurança e a paz internacional".
Foi o mesmo tom do discurso em que classificou como real o risco de um apocalipse causado por IA.
A visita também ocorre em meio a atritos entre a cúpula católica francesa e o governo local. A Constituição do país passou a garantir o direito ao aborto em 2024.
Uma lei que autoriza morte assistida para doentes incuráveis também foi aprovada no início de 2026.
O ponto em aberto
Uma visita de quatro dias não apaga sete décadas de casos documentados, e a Igreja francesa sabe disso.
A pergunta que fica é se o encontro do papa com as vítimas produz algo além do gesto simbólico, como mudança concreta na forma como a instituição lida com novas denúncias.





























