O Brasil deve fechar 2026 com superávit comercial de US$ 90 bilhões, o segundo maior da história, atrás só do resultado de 2023. A projeção do governo é 32,3% maior que o saldo fechado em 2025, mesmo com as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

De janeiro até a segunda semana de agosto, o país já acumula US$ 52,084 bilhões em superávit, 29,2% mais que no mesmo período de 2025. As exportações do primeiro semestre cresceram 11,5%, mesmo com a guerra no Oriente Médio e o tarifaço americano no caminho.

Por que o ritmo desacelerou em agosto?

O resultado mensal não é uma linha reta. Na primeira semana de agosto, o superávit ficou perto de US$ 2,41 bilhões. Na segunda, caiu para US$ 635,3 milhões, com exportações de US$ 6,881 bilhões e importações de US$ 6,246 bilhões.

A desaceleração aparece porque as importações cresceram mais rápido que as exportações no mês, 16,2% contra 14,3%, na comparação com agosto do ano passado.

Entre os produtos que o Brasil mais vendeu, a indústria extrativa lidera, com alta de 27,8%. O agronegócio cresceu 10,4%, e os manufaturados, apenas 8,8%.

Do lado das compras, os manufaturados puxam o crescimento. As importações desse setor subiram 19%, enquanto caíram na indústria extrativa e na agropecuária.

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, usa o resultado para rebater as tarifas dos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos têm déficit com o mundo inteiro, mas tem superávit com Brasil, Reino Unido e Austrália, só os três. Então, não é justo", disse o ministro.

Para especialistas em comércio exterior, porém, o número recorde esconde um problema estrutural. O fenômeno chamado de reprimarização mostra que o Brasil exporta cada vez mais produtos primários, como minério, grãos e petróleo bruto, e cada vez menos manufaturados.

O agronegócio sozinho respondeu por cerca de 48,9% das exportações brasileiras em 2024. A crítica desses especialistas é que esse modelo gera menos inovação tecnológica e empregos de menor remuneração, mesmo quando o saldo em dólares bate recorde.

Quanto tempo o superávit resiste sem indústria forte?

O recorde de 2026 é positivo para as contas externas do país e ajuda a segurar o câmbio. Mas uma pergunta antiga segue sem resposta. Quanto tempo o Brasil consegue crescer as exportações sem avançar na indústria de maior valor agregado?

Enquanto os manufaturados cresceram 8,8% em agosto, a indústria extrativa saltou mais que o triplo disso. O caixa melhora; a composição da pauta exportadora segue praticamente a mesma de anos atrás.