Lula disse nesta segunda-feira (21), em Nova York, que não pretende aplicar agora a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos enquanto houver negociação sobre o tarifaço de Trump. Ele afirmou que evita guerra comercial, mas mantém a retaliação na mesa se não houver acordo.

Segundo o Poder360, Lula deu a declaração em entrevista à CNN Internacional, na véspera da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O petista discursará nesta terça-feira (22), em ambiente já marcado pela fala brasileira sobre soberania na ONU.

"Enquanto estivermos na mesa de negociação, não tenho que aplicar a lei da reciprocidade", declarou Lula, segundo o Poder360. Ao Valor, o presidente disse que é "muito cauteloso" com a medida e que prefere o diálogo antes de escolher produtos para uma resposta brasileira.

O Metrópoles registrou outra fala de Lula sobre Trump. "Ele age como um imperador. É uma forma de governar que eu não concordo, é a lei mais forte, eu não concordo com isso", disse o presidente. A crítica mira a política tarifária dos EUA.

O que muda na prática?

O que muda na prática é o prazo político da resposta brasileira: a Lei da Reciprocidade fica como ameaça, mas não vira contramedida enquanto os dois governos conversam. Para exportadores, isso prolonga a incerteza sobre tarifa, preço e contrato.

A Lei 15.122, de 2025, permite ao Executivo suspender concessões comerciais, investimentos e obrigações ligadas à propriedade intelectual quando o Brasil responder a medidas unilaterais que prejudiquem sua competitividade. Lula disse que, se não houver acordo, o governo terá de aplicar a lei.

O pano de fundo é econômico. Dados do MDIC citados pelo Poder360 mostram exportações brasileiras aos EUA de US$ 17,4 bilhões no 1º semestre de 2026, queda de 13% ante 2025. A fatia americana caiu de 12,1% para 9,4%.

Lula também afirmou que, desde a adoção das novas tarifas, as vendas brasileiras aos EUA recuaram 9%, enquanto as importações de produtos norte-americanos caíram 8,5%. O governo tenta compensar parte desse choque diversificando mercados na Ásia e na Europa.

A sobretaxa americana foi aplicada em julho. Segundo o Metrópoles, os EUA passaram a cobrar 37,5% sobre uma gama de produtos brasileiros após investigações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Lula disse que a medida foi baseada em "mentiras".

A cautela desta segunda atualiza uma negociação que já vinha em curso. Em agosto, Brasil e Estados Unidos marcaram nova rodada sobre o tarifaço, e o governo prorrogou instrumentos para exportadores afetados pelas tarifas dos EUA.

O que acontece agora

O que acontece agora é uma nova rodada diplomática antes de qualquer retaliação. Segundo o Metrópoles, uma delegação brasileira deve viajar aos Estados Unidos no fim de setembro; o Valor informa que não há previsão de encontro entre Lula e Trump.

Lula e Trump discursam na abertura da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira.

Pela tradição do evento, o presidente brasileiro fala antes do americano. Isso coloca a disputa tarifária dentro de uma vitrine diplomática global sem transformar, por ora, a lei brasileira em sanção efetiva.