O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira (22) que o Brasil não vai "terceirizar" a defesa de suas fronteiras contra o crime organizado. A fala foi feita em discurso na abertura da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York.

Lula rejeitou publicamente a presença de porta-aviões dos EUA na região.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas, precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.

Lula completou dizendo que o país "não subestima o desafio representado pelo crime organizado", mas quer manter a responsabilidade de proteger a própria população e as próprias fronteiras.

O discurso chega em meio a uma fase de tensão entre Brasília e Washington sobre segurança pública. Os EUA classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.

A decisão foi tomada por Trump após recomendação do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Com a classificação, operações contra as duas facções passam a poder envolver a CIA e forças militares americanas, não só o FBI e a DEA.

Lincoln Gakiya, promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo, avaliou que a medida vai causar problemas ao Brasil sem trazer nenhum benefício prático, já que as duas facções já respondem à Justiça brasileira.

O governo brasileiro rejeitou o pedido dos EUA para classificar as facções como organizações terroristas.

Segundo Lula, o Brasil propôs pessoalmente a Trump um plano de cooperação contra a lavagem de dinheiro de criminosos brasileiros no exterior, e pediu que os EUA deportem empresários procurados por sonegação fiscal. O discurso não foi aplaudido pela delegação americana.

O que o governo diz ter feito contra o crime

O governo afirma ter batido recorde de apreensão de drogas e bens ilícitos em 2026. "A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo", disse Lula na tribuna da ONU.

A lei, sancionada por Lula em março, prevê penas de 20 a 40 anos de prisão para líderes de facção. Ela permite bloquear e perder bens ligados ao crime, inclusive ativos digitais, mesmo sem condenação, por ação civil autônoma.

Lula também citou o combate à corrupção, tema que ganhou peso na campanha eleitoral deste ano. "Crime organizado e corrupção andam juntos. Ninguém está acima da lei", afirmou.

A frase tem sido repetida por integrantes do governo tanto sobre o STF quanto sobre o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva.

A segurança pública segue como um dos pontos de pior avaliação do terceiro mandato de Lula. É nesse cenário que o presidente tenta equilibrar dois discursos: reconhecer o avanço do crime organizado e rejeitar qualquer ingerência americana sobre o tema.

O atrito já rendeu alerta da Abin sobre risco de interferência dos EUA na eleição deste ano.

O que acontece agora

O Itamaraty aguarda resposta de Washington à proposta brasileira de cooperação contra lavagem de dinheiro.

A classificação de PCC e CV como terroristas já levou Ronaldo Caiado a prometer rótulo semelhante se eleito, o que deve manter o tema na campanha até o 1º turno.

O governo já havia negado falhas no combate às facções após críticas da Casa Branca e afirma manter dois planos de combate a facções apresentados aos EUA sem resposta há meses.