Um relatório da Polícia Federal divulgado nesta quinta-feira (30) aponta que o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, trocaram 74 ligações entre novembro de 2023 e maio de 2025. Somadas, as chamadas totalizam cinco horas e 30 minutos de conversa, segundo o documento. Os achados da Operação Compliance Zero foram tornados públicos pelo ministro André Mendonça.
De acordo com a PF, foram identificados elementos que indicam o "recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente", por meio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao banco. Entre as benesses citadas no relatório aparecem a compra de um imóvel, propina e ingressos para um show.
Wagner nega irregularidades. Após a operação de junho, o senador negou envolvimento com o banco, e o Partido dos Trabalhadores afirmou ter "plena confiança" em sua trajetória política. A investigação segue em curso: o senador está intimado a depor à Polícia Federal em 7 de agosto. A CNN Brasil informou que procurou a defesa do senador e que o espaço segue aberto para manifestação.
Voos, imóvel e um encontro 'discreto'
O relatório aponta ao menos quatro situações em que, "em tese", o senador teria sido transportado em aeronaves ligadas ou operadas por pilotos vinculados a Augusto Lima, inclusive por meio de aeronaves eventualmente locadas. As ocorrências são datadas de outubro de 2023, novembro de 2023, abril de 2024 e uma quarta vez, esta a partir de registros encontrados no celular de Vorcaro. Segundo o documento, não havia "registro de pagamento ou contraprestação" em nenhuma das ocasiões. A primeira dessas viagens, em outubro de 2023, teria sido à Ilha da Paixão, com a esposa do senador.
Outro ponto do material trata da negociação de um apartamento de luxo de R$ 2,5 milhões para Wagner. Documentos da PF mostram que as tratativas seguiram mesmo depois de Vorcaro, antigo dono do banco, ser preso, em novembro de 2025.
Para a PF, o "fluxo financeiro utilizado para mascarar a origem dos recursos" nessa compra tinha "sistemática muito semelhante" à usada na propina paga a Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Segundo a investigação, o dinheiro transitava por fundos de investimento antes de "aportar em pessoa jurídica de fachada, registrada em nome de laranja". A corporação afirma que estruturas como S.A. ou SPE "facilitam a ocultação do beneficiário final".
Os documentos indicam ainda que Wagner teria articulado um encontro "discreto" entre o advogado-geral da União, Jorge Messias, e Augusto Lima, que à época era sócio de Vorcaro.
Quem é quem no caso
Augusto Ferreira Lima, conhecido como "Guga Lima", foi CEO do Master e controlador do Banco Pleno, que teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em fevereiro deste ano. Ele foi preso preventivamente na 1ª fase da operação, em novembro de 2025.
Em junho, a PF deflagrou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que teve Wagner como alvo. Na sequência, o senador deixou a liderança do governo no Senado: o anúncio foi feito por ele próprio em 24 de junho, em nota divulgada após reunião no Palácio da Alvorada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a nota, a decisão foi tomada em comum acordo. No dia seguinte, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) foi designada para o cargo.
Wagner está intimado a depor à Polícia Federal em 7 de agosto, presencialmente, na Superintendência da PF em Brasília.














