O Tribunal Administrativo do Cade julga nesta quarta-feira (2) a compra de 60% da Central de Registro de Direitos Creditórios (CRDC) pela B3, fechada em setembro de 2025 por R$ 15 milhões. A sessão decide se a bolsa amplia ainda mais o domínio que já tem sobre o registro de recebíveis usados por empresas para antecipar dinheiro.
A Superintendência-Geral do Cade recomendou ao tribunal que rejeite a compra ou imponha restrições, como venda de ativos e relatórios de monitoramento. O parecer, de 25 de maio, classificou o caso como complexo pelos efeitos conglomerais, risco de a B3 usar seu domínio em outros produtos financeiros para reforçar a posição no registro de recebíveis.
A CRDC registra boletos, duplicatas, contratos e recebíveis para bancos, fintechs, fundos de investimento em direitos creditórios e factorings, com homologação do Banco Central. Fundada em 2014 em São Paulo, é controlada pela Associação Comercial de São Paulo, a ACSP.
O que está em jogo na concentração
O parecer da área técnica aponta que a B3 já detém cerca de 93% do mercado de registro de duplicatas e recebíveis no país. A compra da CRDC elevaria essa fatia a 95%.
A Superintendência-Geral também apontou efeito sobre a Cédula de Produto Rural, a CPR, título usado por produtores para antecipar recursos com garantia na safra. Segundo o parecer, "no caso da CPR, a saída da CRDC implica na formação de um duopólio".
Hoje operam no setor quatro registradoras autorizadas, a B3, a CERC, a Núclea (ex-CIP) e a SPC Grafeno.
A CERC, concorrente direta da CRDC, entrou no processo como terceira interessada. A empresa diz que a operação reforça o poder de portfólio da B3 e defende acesso simultâneo e não discriminatório às tecnologias de integração da B3.
Depois do parecer contrário, a B3 propôs ao tribunal um Acordo em Controle de Concentrações, com compromissos para viabilizar a aprovação. A empresa se dispôs a delimitar o alcance da parceria com a ACSP e assumir salvaguardas contra o uso cruzado de produtos entre as duas companhias.
A operação levou quase um ano até chegar a julgamento. Fechada em setembro de 2025, foi classificada como complexa em março e só recebeu parecer técnico em maio. Chama atenção o contraste entre o valor do negócio, R$ 15 milhões, e o rigor da análise.
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O Cade já aprovou este ano, sem restrições, negócios maiores, caso da compra da Brava Energia pela Ecopetrol e da entrada da American Airlines no capital da Azul. A diferença é que, nos dois casos, o órgão não viu risco de concentração.
Outras fusões entre companhias da B3 seguem sob análise do Cade neste ano, caso da fusão em tratativas entre Yduqs e Afya.
O que acontece agora
Cabe aos conselheiros decidir entre três caminhos, aprovar a compra com restrições, aceitar o acordo da B3 ou barrar a operação. O relator do processo é o conselheiro José Levi Mello do Amaral Júnior.
Até o fechamento desta reportagem, o resultado do julgamento ainda não havia sido divulgado pelo Cade.
Para quem usa duplicatas e recebíveis para financiar o próprio negócio, de pequenas empresas a fundos de investimento, o desfecho define se o setor segue com quatro registradoras competindo ou se a B3 ganha ainda mais peso num mercado em que já é a maior operadora do país.


























