O Banco Central já deu cinco cortes seguidos na Selic, agora em 13,75% ao ano, enquanto o Federal Reserve subiu os juros dos EUA a 3,75%-4,00% em setembro, para conter a inflação. Para a Ágora, o descompasso explica a alta da Bolsa em 2026.

A diferença de ritmo entre os dois ciclos monetários chamou atenção do mercado.

Segundo a corretora, o principal efeito da queda da Selic é mudar a atratividade entre renda fixa e renda variável. Durante anos, os juros altos bastaram para manter recursos concentrados em títulos públicos. Com os cortes, esse diferencial de retorno diminui aos poucos.

A Ágora chama atenção para os setores ligados ao mercado interno como os primeiros a sentir o efeito de juros menores. Varejo, construção civil, consumo e serviços dependem mais de crédito para crescer.

O que muda para quem investe

Para quem investe, o recado da Ágora é que juros menores tendem a valorizar empresas ligadas ao consumo interno do país. Na prática, porém, o Ibovespa ainda é puxado por outro grupo de ações.

Dados da B3 mostram que as dez ações que mais subiram no primeiro semestre de 2026 foram lideradas por commodities e exportadoras, não por varejo ou construção civil. Usiminas, Copasa, Eneva, Petrobras e Prio ficaram entre as maiores altas.

O varejo apareceu só na décima posição, com o Assaí. Isso mostra que a migração para os setores mais sensíveis à Selic ainda é mais uma expectativa do que um resultado confirmado nos números.

Mesmo assim, a Ágora ressalta que o Brasil mantém um dos maiores diferenciais de juros do mundo em relação aos Estados Unidos, o que ajuda a atrair capital estrangeiro e sustenta o real.

O dólar fechou a 22 de setembro cotado a R$ 5,10, com queda acumulada de cerca de 7% no ano. O cenário externo também mexeu com outras bolsas na mesma semana. Já o Ibovespa fechou o pregão aos 187.422 pontos.

Nem todo analista vê só oportunidade

Essa leitura de oportunidade para a Bolsa não é unânime entre as casas de análise que acompanham o mercado brasileiro. O Morgan Stanley projeta o Ibovespa a 215 mil pontos, mas alerta que o risco fiscal pode estar subestimado.

UBS e Bank of America adotaram postura mais cautelosa nas últimas semanas. O UBS rebaixou sua recomendação para o país a neutra, e o BofA reduziu a exposição ao Brasil, citando a falta de reformas estruturais.

A XP reforça esse ponto de cautela. Segundo a corretora, Selic mais baixa não significa migrar de forma agressiva para a Bolsa, dado o cenário eleitoral e o risco fiscal.

O episódio recorda o ciclo de 2016 a 2018, quando o Banco Central cortava juros de forma agressiva enquanto os Estados Unidos seguiam na direção oposta.

O que acontece agora

O mercado agora observa os próximos passos dos dois lados. O Copom volta a se reunir em 4 de novembro para decidir se segue cortando a Selic, enquanto o Federal Reserve tem novo encontro marcado para 28 de outubro.