O presidente do Paraguai, Santiago Peña, pediu nesta quarta-feira (23) a reintegração da Venezuela ao Mercosul, em discurso na Assembleia Geral da ONU. A Venezuela está suspensa do bloco desde 2016, por descumprir a exigência democrática do Protocolo de Ushuaia.

O governo de Peña é alinhado à Casa Branca de Trump. Isso dá peso político ao pedido feito na ONU.

Peña discursou em Nova York, onde a Assembleia Geral da ONU reúne líderes mundiais entre os dias 22 e 28 de setembro. O pedido não surgiu do nada.

Segundo a CNN Brasil, o Paraguai já havia consultado o Palácio do Planalto sobre convidar a Venezuela para a Cúpula do Mercosul de junho, em Assunção. O Planalto deu sinal verde à sondagem, avaliando que a reaproximação ajudaria a estabilidade venezuelana.

A Venezuela foi suspensa do Mercosul em 2016 por decisão dos chanceleres de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, com base no Protocolo de Ushuaia, de 1996. Pelo artigo 7, a suspensão só termina com a restauração plena da ordem democrática no país.

O que mudou na Venezuela para reabrir a discussão

O que reabre a discussão é a mudança de governo em Caracas. A Venezuela é presidida desde janeiro por Delcy Rodríguez, a primeira mulher a ocupar o cargo no país, depois da captura de Nicolás Maduro numa operação militar dos Estados Unidos.

Em março, o Departamento de Estado americano passou a reconhecer Rodríguez como única autoridade legítima da Venezuela. Mas o reconhecimento de Washington não equivale à eleição democrática exigida pelo Protocolo de Ushuaia. É essa distância que o pedido de Peña ainda precisa enfrentar.

Delcy Rodríguez também esteve na ONU nesta semana e pediu uma reunião com representantes do governo Lula. O encontro não se confirmou. Fontes do governo brasileiro atribuíram a ausência à incompatibilidade de agendas, segundo apuração do UOL confirmada à CNN Brasil.

A relação entre Brasília e Caracas já vinha sendo testada nos bastidores da ONU. Trump se reuniu com Delcy Rodríguez na ONU nesta semana, com o petróleo venezuelano no centro das conversas.

O episódio ocorre em meio à escalada da postura americana para a região. Trump repetiu na ONU a ameaça de usar força militar na América Latina, a mesma retórica que precedeu a captura de Maduro.

Isso eleva a cautela de governos vizinhos sobre o novo governo venezuelano.

A situação política interna da Venezuela segue incerta oito meses após a queda de Maduro. A opositora María Corina Machado ainda não consegue voltar ao país, o que mostra que a transição está longe de resolvida.

O que acontece agora

A reintegração da Venezuela depende de decisão formal dos quatro países plenos do Mercosul, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, em reunião de chanceleres ainda sem data marcada. Nenhum deles anunciou posição pública contrária ou favorável desde o discurso de Peña.