O Federal Reserve elevou os juros dos Estados Unidos para a faixa de 3,75% a 4,00% em 17 de setembro, mesmo dia do corte da Selic a 13,75% pelo Banco Central. O diferencial entre as taxas caiu a pouco mais de 9 pontos percentuais.

"No meu cenário base, provavelmente serão necessários novos ajustes na política monetária para garantir que a inflação volte à meta em tempo hábil", disse Michael Barr, diretor do Fed, nesta quarta-feira (23), em discurso preparado para uma conferência do Fed de Chicago sobre moradia.

A decisão do Fed foi unânime. Ela encerrou uma sequência de três cortes seguidos nos juros americanos. Dos 18 membros votantes, 16 sinalizaram pelo menos mais um aumento até o fim do ano.

A taxa média das hipotecas de 30 anos nos Estados Unidos subiu para 7,12% na semana passada, o maior nível em mais de dois anos.

O aperto também aparece na pesquisa trimestral do Fed com cerca de 500 empresas americanas. Os diretores financeiros esperam reajustar preços em 5,3% neste ano e 4,5% no próximo, acima das estimativas do trimestre anterior.

A política monetária virou a principal preocupação das empresas: cerca de 20% delas a colocam no topo da lista, contra menos de 15% na pesquisa anterior.

"Quando há desafios, eles são mais pronunciados para empresas pequenas e com restrições financeiras", disse Sonya Waddell, vice-presidente e economista do Fed de Richmond, que conduz a pesquisa com o Fed de Atlanta e a Fuqua School of Business, da Universidade Duke.

Cerca de um quinto das pequenas empresas afirma que as restrições de financiamento travam planos de expansão. O grupo, em geral, espera reduzir investimentos nos próximos seis meses.

O que muda no bolso do brasileiro?

O corte da Selic pelo Copom, cuja ata já testa a aposta em novos cortes, reduz o prêmio pago pelo Brasil para atrair capital estrangeiro. O diferencial é o menor patamar em meses, segundo cálculo da Forbes.

"Um real mais depreciado encarece importados e insumos", diz Eduardo Mira, da Forbes.

O risco é a alta do dólar realimentar a inflação que o Banco Central tenta controlar. Produto importado e insumo industrial ficam mais caros exatamente quando o BC busca trazer os preços de volta à meta.

O dólar fechou a R$ 5,1252 na venda em 11 de setembro, alta de 0,47% no dia. O Banco Central já descartou solavanco no câmbio por causa do corte da Selic.

O Boletim Focus do Banco Central, de 8 de setembro, projeta a moeda em R$ 5,20 até o fim do ano. O Itaú Unibanco projeta R$ 5,30, no cenário mais pessimista, e o banco Inter, R$ 5,15.

"Se o Banco Central continuar reduzindo a Selic enquanto o Fed mantém uma postura mais dura, o diferencial entre as taxas dos dois países diminui", diz André Valério, economista do Inter.

A Avenue Investimentos aponta o risco fiscal doméstico como fator adicional de pressão sobre o câmbio. Parte do mercado já trata o descompasso entre Selic e juros dos EUA como oportunidade para a Bolsa.

O que acontece agora

No Brasil, o Banco Central projeta inflação acima da meta de 3% até 2027, com convergência à meta só no primeiro trimestre de 2028. Enquanto o diferencial de juros seguir estreito, o câmbio deve continuar no radar do Copom nas próximas reuniões.