Cientistas encontraram a evidência mais antiga conhecida do uso psicoativo da cannabis num túmulo cita de 2.800 anos, no sul da Sibéria. O estudo identificou mais de 1.400 sementes da planta e marcas químicas em cabelos humanos encontrados no local.

O túmulo, batizado de Tunnug 1, fica no Vale de Uyuk, na República de Tuva, no sul da Sibéria. É uma estrutura funerária com 140 metros de diâmetro, erguida pela cultura cita, povo nômade conhecido pela guerra a cavalo e pela ourivesaria.

O local abrigava membros de alto escalão da sociedade cita. O sepultamento incluía 18 cavalos sacrificados, com descobertas posteriores de dezenas a mais. Há indício também de possível sacrifício humano no mesmo túmulo.

Os pesquisadores recuperaram mais de 1.400 sementes de cannabis em câmaras funerárias de madeira, perto de esqueletos e dentro de tecidos preservados. A datação por radiocarbono de seis sementes situou os depósitos no início do século 8 a.C., cerca de 2.800 anos atrás.

Nos cabelos humanos encontrados no túmulo, os cientistas detectaram canabinol, substância formada quando o THC se oxida, além de sinais mais fracos de THC. A combinação indica consumo da planta por suas propriedades intoxicantes, e não só produção de fibra ou semente oleaginosa.

A planta servia também para fibra e semente, não só efeito psicoativo.

Nosso estudo mostra a evidência direta mais antiga do consumo psicoativo de cannabis.

A frase é de Gino Caspari, arqueólogo da Universidade de Berna que liderou o estudo, publicado na revista Science. Segundo ele, “muito raramente encontramos evidências concretas e podemos realmente confirmar que uma planta foi consumida” com fins psicoativos.

Publicidade

Por que a descoberta muda o quadro

A detecção de canabinol em cabelos humanos é inédita para esse período. Estudos anteriores encontravam só resíduos em objetos, como queimadores ou cachimbos, nunca sinais químicos diretamente no corpo de quem teria consumido a planta.

Para os cientistas, o contexto ritual do sepultamento reforça a hipótese de um uso xamânico ou cerimonial da planta, e não apenas recreativo.

O recorde anterior era de 2019

Até esta pesquisa, a evidência mais antiga de uso psicoativo vinha de sepulturas de 2.500 anos nas montanhas Pamir, identificada em 2019. Lá, cientistas acharam resíduos em queimadores de madeira, mas sem sinal direto em tecido humano.

Não é a primeira vez que uma descoberta arqueológica reescreve recordes conhecidos. A TV Sim Brasil já mostrou o naufrágio mais antigo do mundo, achado na Turquia.

Outro caso recente foi o esqui de 2.500 anos encontrado sob o gelo dos Alpes europeus.

Outro estudo recente revisitou ossos humanos e achou sinais de canibalismo ritual no Neolítico da Espanha.