O governo dos Estados Unidos fechou parceria entre a empresa americana Crusoe e a paraguaia Araico para usar energia de Itaipu em um centro de dados de inteligência artificial no Paraguai. Especialistas dizem que isso pode reduzir a energia excedente hoje destinada ao Brasil.
Segundo o anúncio, o centro vai processar dados para clientes dos Estados Unidos e da América Latina. A capacidade inicial é de 106 megawatts, com opção de expansão para cerca de 280 megawatts.
A primeira fase deve entrar em operação em meados de 2027. O preço acertado para a energia é de US$ 48 por megawatt-hora, com reajuste anual de 2,5% conforme a inflação americana.
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito, cada um, à metade da energia produzida pela usina binacional. O que um país não consome pode ser vendido ao outro, e é o que garante ao Brasil os 26% que sobram da cota paraguaia hoje.
A parceria entre Crusoe e Araico é um desdobramento direto do acordo entre EUA e Paraguai sem menção ao Brasil, divulgado dois dias antes pelo Departamento de Estado americano.
O Paraguai já consome 74% da energia a que tem direito na usina, fatia que cresce à medida que o país recebe empreendimentos de grande porte, como o próprio data center de inteligência artificial.
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O que diz quem acompanha o setor
Para Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Universidade Nacional de Assunção, a redução do excedente destinado ao Brasil já está em curso e tende a se acelerar com a chegada de novos consumidores de energia no Paraguai.
Em nota ao g1, a direção brasileira de Itaipu informou que não participou do encontro entre as autoridades americanas e paraguaias. A destinação da energia de cada país, segundo a empresa, é decisão nacional conforme o tratado binacional.
O Brasil não integrou as negociações que miram energia do seu mercado.
A disputa pela energia da usina não é nova. Em 2024, Brasil e Paraguai fecharam acordo para reajustar a tarifa paga pelo excedente, depois de um impasse em que o lado paraguaio chegou a travar o caixa de Itaipu para pressionar por valores mais altos.
O acordo prevê que, a partir de 2027, o Paraguai poderá vender sua cota a outros compradores no mercado livre de energia, não apenas ao Brasil. É esse horizonte que torna a chegada do data center de IA mais sensível para o lado brasileiro.
O que acontece agora
Itaipu projeta que, até 2035, deixará de haver excedente paraguaio disponível para o Brasil, por causa do crescimento do consumo interno do Paraguai, puxado, entre outros fatores, pela chegada de data centers como o anunciado pelos Estados Unidos.
Em meio às negociações sobre a tarifa paga pelo Brasil, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já afirmou que há diálogo diplomático com o Paraguai. Romper o contrato não está em pauta, disse o ministro. O próximo marco é 2027.
O episódio ocorre enquanto o Brasil amplia seus próprios data centers de IA, em meio à corrida global por energia para esse setor.

































