O empresário Ricardo Teagano, único passageiro sobrevivente do voo 820 da Varig, que pegou fogo em 1973, passou três meses internado após o acidente, dois deles em coma e sob cuidados intensivos em Paris. Ele conta que cartas de desconhecidos e um cartaz diário de incentivo o sustentaram no período mais difícil da recuperação.
Teagano acordou do coma 30 horas depois do pouso forçado, com queimaduras graves pelo corpo. Os médicos, segundo ele, não davam a ele uma semana de vida.
"Eu tinha a primeira radiografia de pulmão, como se fosse uma testada de óbito", relatou, sobre o estado em que chegou ao hospital.
O cartaz que uma enfermeira trazia todo dia
Os pais de Teagano receberam passagens da Varig para acompanhá-lo em Paris, mas não podiam entrar no CTI. Todos os dias, uma enfermeira levava até ele um cartaz com uma frase diferente, escrita à mão pelos próprios pais.
"Vamos lá, Ricardo! Ricardo, você vai sair logo daí! Força!", lembrou das mensagens. Segundo ele, esperava a enfermeira chegar às quatro da tarde e ficava ansioso quando ela atrasava alguns minutos.
Cartas de gente que ele nunca tinha visto
Teagano também recebia dezenas de cartas por dia, boa parte delas de pessoas que não o conheciam, de várias regiões do Brasil e até do exterior. Uma veio de uma adolescente na Turquia.
"Ricardo, eu não te conheço. Mas quando você sair do hospital, eu quero encontrar com você e te dar um abraço pessoalmente", escreveu a garota, segundo Teagano recordou na entrevista.
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As cartas de estranhos, segundo ele, mudaram a forma como enxergava as pessoas ao redor. Passou a notar mais a solidariedade de quem nem conhecia do que a indiferença que via antes no mundo.
Meses depois, já recuperado, ele encontrou na rua um amigo de infância, hoje falecido, a quem contou ter sentido um abraço inexplicável no momento do acidente. O amigo deu outro sentido à lembrança.
"Ricardo, não era a morte te abraçando, era a vida te protegendo. Era o teu anjo da guarda te dando um abraço", disse o amigo, segundo o relato de Teagano.
Ainda na UTI, dividindo o quarto com pacientes em estado grave, Teagano usou um estetoscópio emprestado para ouvir, sem incomodar os vizinhos de leito, as fitas cassete com música que recebia de amigos.
"Eu fui o inventor do Walkman no hospitalar", brincou, lembrando que a ideia surgiu anos antes de a Sony lançar comercialmente o aparelho, no fim da década de 1970.


































