A crise do banco digital Ueno, no Paraguai, derrubou o presidente do Banco Central do país e levou manifestantes às ruas de Assunção nesta semana. Por trás da queda de braço entre depositantes e governo, há um dado que poucos repararam.
Os dois lados da crise já estiveram dentro do próprio banco. Carlos Carvallo, que pediu demissão da presidência do Banco Central do Paraguai na terça-feira (3 de novembro), comandou o próprio Ueno até agosto de 2023.
O presidente Santiago Peña, que cobrou a saída de Carvallo, foi sócio do grupo controlador do banco até março de 2025.
O que gerou a intervenção
O Ueno é a maior emissora de cartões de crédito do Paraguai, com cerca de 3 milhões de clientes. Depois de ajustes em seus balanços, o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido pela lei paraguaia.
O Banco Central iniciou um procedimento de resolução para proteger os depositantes, suspendeu as operações e tornou os depósitos temporariamente indisponíveis. O Ministério Público pediu investigação criminal e a prisão de oito pessoas ligadas ao banco.
As três pontas da crise
Reguladores já investigavam se o Ueno financiou indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, seu controlador. O banco nega a operação. Essa é a ponta regulatória do caso.
Há também a ponta da rua: depositantes e aposentados foram a agências do banco na terça-feira e encontraram as portas fechadas.
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“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à Reuters o morador de Ñemby Manuel Cáceres. Parte dos manifestantes chegou a pedir que o próprio Peña responda judicialmente pelo caso.
E há a ponta institucional: o Ueno administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai, incluindo o Instituto de Previsión Social (IPS) e fundos de aposentadoria, que os manifestantes também cobram de volta.
O ponto em aberto
Peña anunciou acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que usa o Fundo de Garantia do país para pagar os depositantes.
Mas nem governo nem Banco Central disseram publicamente se o histórico de Carvallo e Peña dentro do próprio Ueno influenciou a fiscalização que falhou em detectar a quebra a tempo.
O caso ainda ameaça a reputação do Paraguai como destino de capital estrangeiro — boa parte dele vindo do Brasil, segundo o G1 — num momento em que o país tenta se firmar como polo emergente na região.































