A indústria brasileira de carne bovina discute com os Estados Unidos a criação de uma cota própria de exportação, entre 100 mil e 200 mil toneladas por ano. A proposta foi debatida nesta semana na 65ª Conferência Anual do MICA, no Arizona, sem negociação formal.
Hoje o Brasil não tem cota própria de carne bovina nos Estados Unidos. O país integra o grupo de fornecedores sem reserva específica. Em setembro, os EUA já tinham comprado volume recorde de carne bovina brasileira.
Os Estados Unidos começaram 2026 com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, o menor patamar desde 1951, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). O rebanho de vacas de corte, de 27,6 milhões de cabeças, caiu 1% ante o ano anterior.
O USDA projeta alta de 8,7% nos preços da carne bovina e do vitelo em 2026. A queda do rebanho é atribuída a anos de seca, aumento dos custos de produção e descarte elevado de matrizes, segundo o InvestNews.
A escassez já pressiona frigoríficos com operação nos dois países, caso da JBS, que neste ano entrou na mira de Trump em uma ofensiva contra monopólio da carne, e da Marfrig.
Por que a janela comercial se abriu agora
A janela comercial se abriu porque os Estados Unidos ampliaram temporariamente, em setembro, a cota de importação de carne bovina magra sem cota própria, reduzindo a tarifa de 26,4% para apenas US$ 44 por tonelada até 30 de novembro.
A medida, a Proclamação 11059, assinada por Donald Trump em 26 de agosto, prevê volume de 300 mil toneladas e vale para países sem cota específica, incluindo Brasil, Paraguai e Irlanda.
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Se as importações não forem vendidas a 25% abaixo do preço de mercado, o governo pode cancelar a parte que sobrar. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) avalia que a exigência limita a margem das empresas brasileiras.
Isso explica por que o setor busca agora uma solução permanente, em vez de depender de uma janela criada por decreto e com prazo marcado para fechar.
Durante o painel sobre política comercial, na quarta-feira (4 de novembro), o presidente da Abiec, Roberto Perosa, defendeu a relação bilateral. Segundo o dirigente, Brasil e Estados Unidos mantiveram relação comercial relevante, apesar das tensões tarifárias do último ano.
O argumento do setor é que a carne brasileira pode suprir a necessidade americana de cortes magros usados na fabricação de carne moída e hambúrguer. Compradores americanos, segundo o setor, têm interesse na carne brasileira, mas buscam preços competitivos.
Por isso, a indústria considera que não basta ampliar o volume vendido. É preciso garantir condições comerciais que assegurem remuneração adequada aos frigoríficos.
A missão oficial brasileira na conferência foi liderada por Augusto Billi, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. Ele defendeu mais previsibilidade comercial e diálogo regulatório entre o USDA e o Brasil.
Em julho, o preço da carne bovina exportada aos Estados Unidos já tinha batido recorde, mesmo sob o tarifaço imposto por Trump.
O que acontece agora
A cota emergencial de 300 mil toneladas aberta pelos Estados Unidos termina em 30 de novembro, e o Brasil ainda não apresentou formalmente o pedido de cota própria ao governo americano, mantendo a discussão restrita aos bastidores do setor.
A Abiec e o Ministério da Agricultura seguem buscando previsibilidade comercial e diálogo regulatório com o USDA, parte da agenda que Augusto Billi apresentou no Arizona.






























