A arrecadação com o imposto sobre lucros das maiores empresas dos Estados Unidos caiu cerca de 15%, para US$ 381 bilhões, no ano fiscal encerrado em 1º de outubro, segundo o Departamento do Tesouro. A queda ocorre mesmo com os lucros corporativos em nível recorde.

A queda, de aproximadamente US$ 70 bilhões, veio após um recuo semelhante no ano anterior. Em relação a 2024, último ano fiscal completo do governo Biden, a receita diminuiu mais de 25%.

Por trás da redução estão os cortes de impostos aprovados pelos republicanos e sancionados por Trump no ano passado, que permitem às empresas deduzir uma parcela maior dos investimentos no mesmo ano em que são feitos.

A mudança entrou em vigor quando as maiores empresas de tecnologia do país passaram a destinar centenas de bilhões de dólares a projetos de inteligência artificial, incluindo data centers.

É muito incomum ver uma divergência dessa magnitude, mas não chega a ser surpreendente, porque sabemos o que a está causando.

Disse Peter Berezin, economista-chefe da BCA Research, à Folha/New York Times. Segundo ele, os gastos com inteligência artificial devem crescer nos próximos anos, ampliando ainda mais as deduções possíveis.

O que isso significa para o déficit dos EUA

A diferença entre despesas e receitas do governo americano se aproximou de US$ 2 trilhões no último ano fiscal, com o aumento dos gastos militares e dos juros da dívida federal. A dívida em poder do público já supera US$ 32 trilhões.

Nem todo mundo lê o cenário como risco. Em abril, o conselheiro econômico da Casa Branca, Peter Navarro, atribuiu a alta do investimento privado à política econômica do governo: "o setor privado está se reconstruindo", disse, em publicação na rede social X.

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A mesma corrida por data centers de IA que reduz a arrecadação nos EUA hoje é vista pelo governo como prova de que a aposta em investimento está funcionando.

A corrida por data centers de IA também chegou ao Brasil. Um único data center de IA no país pode valer R$ 25 bilhões e gerar 37 mil empregos, segundo levantamento publicado em setembro.

O apetite das empresas de tecnologia por esses projetos acompanha o lucro recorde do setor. A Nvidia, maior fabricante de chips para IA do mundo, lucrou US$ 59,7 bilhões em um único trimestre, alta de 126% puxada pela corrida da inteligência artificial.

Nem todo investimento em IA segue em ritmo acelerado: a captação de dívida para financiar projetos de IA caiu para US$ 23 bilhões em setembro, sinal de que o apetite por crédito do setor pode estar mudando.

O ponto em aberto

A aposta por trás da lei é que o investimento turbinado pelas deduções se converta em mais crescimento e, adiante, em mais lucro tributável. Os cortes já reduziram a arrecadação mais do que os analistas previam.

Os mesmos executivos que ampliam os aportes em IA dizem que pretendem manter esse ritmo. O que ainda não está claro é se o retorno em crescimento vai compensar, em algum momento, o que o Tesouro deixou de arrecadar agora.