O Parque Nacional de Doñana, no sudoeste da Espanha, perde água para poços ilegais que irrigam morango, segundo a WWF Espanha. O país fornece até 25% das frutas e verduras da Europa, no mesmo ano em que o Brasil bate recorde nas exportações ao continente.
Doñana é uma área úmida protegida pela Unesco, lar do lince-ibérico e de milhões de aves migratórias. A região virou polo agrícola em 1971, quando a Espanha, sob a ditadura de Francisco Franco, declarou a irrigação de interesse nacional pelo Plano Almonte-Marismas.
A aposta foi no morango, chamado de "ouro vermelho". Segundo dados da FAO, a fruta pode gerar até 150 mil euros por hectare ao ano, contra cerca de 20 mil euros para a batata.
A WWF Espanha estimou, em 2016, mais de 1.000 poços ilegais e 1.700 reservatórios irrigando sem autorização uma área equivalente a 4.200 campos de futebol. É esse excesso de extração que seca o aquífero do qual depende tanto o parque quanto a lavoura ao redor.
Fica mais quente a cada ano. E a água seca muito rapidamente.
A frase é de um morador de El Rocío, cidade situada ao norte da área úmida, em depoimento à Deutsche Welle. Outro morador da região, que usa um cavalo para puxar uma carruagem turística, contou que precisa buscar água fora de casa para os animais.
O que ameaça o aquífero de Doñana
Ameaça o aquífero a irrigação clandestina que resiste mesmo após repressão oficial. Em 2019, a morte de uma criança de 2 anos que caiu em um poço ilegal levou a Guarda Civil a criar uma unidade especializada em fiscalizar extrações irregulares.
Em 2021, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou a Espanha por falhar em proteger Doñana. Desde então, cerca de 300 poços ilegais foram fechados.
Publicidade
As autoridades espanholas e europeias bancam um plano de recuperação de 1,4 bilhão de euros para a região. Quem extrai água ilegalmente pode pegar até cinco anos de prisão.
Brasil amplia exportações enquanto a Europa aperta oferta
Amplia as vendas ao continente o Brasil, que exportou US$ 664,5 milhões em frutas à Europa entre janeiro e setembro de 2026, alta de 15,8% em valor sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas).
O país já concentra cerca de 85% das exportações brasileiras de fruta em contêiner na Europa, aproveitando o inverno do continente, quando a produção espanhola cai.
Mas a Espanha não é só concorrente: é também o terceiro maior destino da fruta brasileira na Europa, com 16,6% do volume, atrás de Holanda e Alemanha. Uma crise prolongada ali pode abrir mercado e, ao mesmo tempo, afetar a logística do produto brasileiro.
O frete de um contêiner do Brasil à Europa subiu de uma faixa de US$ 4,5 mil-5 mil para US$ 8 mil a 9 mil, segundo Jorge Souza, gerente técnico da Abrafrutas. "As margens reduziram drasticamente", disse ele.
O Brasil já sentira efeito parecido neste ano: a seca na Amazônia pode encarecer o contêiner em até 150% na região Norte, por rota distinta mas sob a mesma pressão logística.
O momento também coincide com o avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia, voltado a ampliar o comércio agrícola entre os dois blocos. Em agosto, o agronegócio brasileiro exportou US$ 15,1 bilhões.
O que acontece agora
O plano de recuperação de Doñana segue em execução, sem data de conclusão divulgada pelas autoridades espanholas e europeias. A fiscalização da Guarda Civil contra poços ilegais continua.
Para os exportadores brasileiros, a safra de inverno europeu segue como a janela de maior demanda por fruta importada, período em que a produção espanhola é menor. A Abrafrutas deve divulgar o balanço completo de 2026 no início do próximo ano.





























