O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, avaliou nesta quinta-feira (17) que o Brasil pode esgotar a cota de carne bovina à China de 2027 já em março ou abril. Os embarques com tarifa menor devem começar em novembro.

Segundo Perosa, a tarifa cai para 12% dentro da cota, contra 55% para quem exceder o limite. A China, maior compradora do produto brasileiro, criou a salvaguarda no final de 2025 para proteger a indústria local, com a tarifa mais alta valendo até 2028.

A nova cota é de 1,128 milhão de toneladas, apenas 22 mil toneladas maior que a de 2026. É um aumento pequeno diante do apetite do mercado chinês.

"Se for o que estamos esperando, pode haver o final da cota em março, mais tardar em abril", afirmou Roberto Perosa.

Perosa defende que os embarques sejam dosados por meio de alguma medida do governo, para que a cota não se esgote rápido demais. Segundo ele, esse ritmo acelerado já gerou desafios ao setor em 2026.

Por que o mercado chinês preocupa o setor?

O apetite chinês pela carne brasileira é a maior incerteza depois que a cota abrir. Segundo Perosa, a China está com estoques altos de carne bovina, no auge da produção de suínos e também produzindo mais aves.

"Precisamos ver esse apetite da China em relação ao Brasil, se tem estoque alto", disse o presidente da Abiec.

Há consenso no setor frigorífico de que a cota deveria ser dividida entre as empresas, para reduzir o impacto de uma corrida às vendas logo na abertura do período.

O aperto não seria novidade. As exportações de carne bovina à China já haviam caído 88% em agosto, depois que o Brasil esgotou quase toda a cota deste ano.

Sem o teto da cota, o Brasil poderia ter exportado 2 milhões de toneladas aos chineses em 2026, ante 1,7 milhão em 2025, segundo a Abiec.

O resultado prático é que o Brasil pode voltar a ficar sem mercado chinês bem antes do fim do ano que vem.

O aperto de 2026 já pressionou o preço do boi no mercado interno. A arroba subiu rumo a R$ 380 mesmo com as exportações travadas, direção que o setor volta a testar caso o cenário se repita em 2027.

Perosa já defendeu o consumo interno como alternativa ao mercado chinês, mas essa rota tem limite. Segundo ele, "o avanço do consumo doméstico tem encontrado limitações, especialmente entre as famílias de menor renda".

Outra frente é o mercado americano. Os EUA suspenderam por 90 dias a tarifa sobre a carne brasileira e reservaram uma cota ao país, alternativa que ajuda a aliviar a dependência do mercado chinês.

O que acontece agora

Os embarques da nova cota, com tarifa de 12%, começam em novembro. O setor cobra que o governo dose o ritmo das vendas para evitar que o limite se esgote tão rápido quanto em 2026, quando frigoríficos enfrentaram meses de margem menor.