Policiais militares de São Paulo mataram três pessoas em crise psiquiátrica em menos de duas semanas, entre 3 e 15 de outubro: Antônio Nunes Batista, 40 anos, Gustavo Munis de Santana, 20, e Camila Pereira da Silva, 32. Os casos reacenderam cobranças por treinamento específico.

"Independente de classe social ou de renda ou isso ou aquilo, ninguém merece morrer dessa forma", diz José Nunes Batista, irmão de Antônio, morto em 3 de outubro na Vila Dionísia, zona norte.

Antônio, que tinha esquizofrenia, foi atingido por um taser e caiu imobilizado. Já no chão, foi alvejado por policiais com pistolas .40. A autópsia registrou 24 tiros. O caso é investigado pelo DHPP e pela Ouvidoria da Polícia.

No dia 10, em Moema, quatro PMs abordaram Gustavo numa tentativa de suicídio. Ele apontou um celular, os agentes gritaram que ele estava armado e dispararam 45 vezes em menos de 5 segundos.

Gustavo foi atingido por 27 tiros, e os policiais foram afastados das ruas.

O secretário de Segurança Pública de SP, Osvaldo Nico Rodrigues, defendeu a ação: "Eu não vejo assim alguma irregularidade na ação do policial porque ali foi um enfrentamento que a pessoa ia ter contra a vida dos policiais."

Eu nunca vou entender um secretário de Segurança Pública falar que 45 tiros é protocolo. Nunca vou entender isso. Nunca.

A frase, da mãe de Gustavo, Santiana Munis, resume a reação das famílias. Ela também chamou a ação de "execução", não de "ajuda para uma pessoa que estava em surto".

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No terceiro caso, em 15 de outubro, no Parque São Domingos, em Pirituba, Camila foi cercada por quatro PMs enquanto portava uma faca. Um deles atirou e a matou com um disparo.

O policial André Coelho Maximo da Costa foi preso em flagrante, mas solto no dia seguinte por decisão da Justiça, com medidas cautelares. Segundo a Polícia Civil, a análise preliminar das imagens indica uso excessivo e desproporcional da força.

O padrão não é novo. Em setembro de 2024, PMs mataram com 12 tiros Gilberto, ajudante de pedreiro em crise na Fazenda da Juta, zona leste, quando ele avançou com um objeto que depois se revelou uma broca de furadeira.

O Ministério Público descartou legítima defesa e denunciou os agentes por homicídio com dolo eventual.

O ponto em aberto

Especialistas em segurança pública dizem que intervenções com pessoas em crise psiquiátrica exigem suporte conjunto da assistência social e da saúde mental. Nenhum dos três casos recentes contou com equipe médica na abordagem, segundo os relatos das famílias.

A pergunta que os três episódios deixam, num país onde a letalidade policial bateu recorde em 2025, é até quando a PM vai responder a crises de saúde mental com o mesmo protocolo usado contra um suspeito armado.

O que acontece agora

A Secretaria de Segurança Pública diz que "não tolera desvios de conduta".

Os casos de Gustavo e Gilberto podem resultar em denúncia por homicídio contra os policiais envolvidos, enquanto o caso de Camila segue sob medidas cautelares contra o PM preso e solto. O de Antônio está nas mãos do DHPP e da Ouvidoria da Polícia.