O Banco Genial simulou empréstimos convencionais para movimentar recursos de um esquema de lavagem ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital). É o que aponta a terceira fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Crédito Oculto e deflagrada nesta quinta-feira (24).
O grupo movimentou R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. A ação cumpriu mandados de busca e apreensão contra 27 alvos em sete estados, num esquema que investigadores atribuem a Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco".
Participaram da operação a Receita Federal, o Gaeco do Ministério Público de São Paulo, a Secretaria da Fazenda, a Polícia Militar, a Polícia Civil e os Gaecos de outros seis estados.
"Muito do que já vimos desde a primeira fase da Carbono Oculto aparece na Crédito Oculto: uso de fintech para bancarizar recursos ilícitos, empresas de fachada, fundo de investimento para fazer camadas de ocultação", afirmou Marcia Meng, da Receita Federal em SP, à Folha.
"A novidade é a simulação de financiamento por um banco formal, com uso de instrumentos financeiros que deixam o esquema mais sofisticado", completou a superintendente.
Como funcionava o esquema
A Usina Itajobi, gerida por Beto Louco e Primo, aportou R$ 100 milhões num fundo chamado Radford. O fundo aplicou o valor em CDBs vinculados emitidos pelo próprio Genial.
O banco usou esse dinheiro para conceder empréstimos, por meio de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário), às holdings de fachada Berna e Branson, também ligadas à dupla.
As holdings usaram o crédito para comprar ativos, entre eles a empresa que controlava a Terrana, distribuidora de combustíveis.
Na prática, segundo os investigadores, o Genial aparecia como credor das holdings. Mas o dinheiro que sustentava os empréstimos havia sido captado pelo próprio banco junto ao fundo Radford.
O circuito fechava a operação: o mesmo grupo era, ao mesmo tempo, credor e devedor de si mesmo. Em nota, o Genial afirmou que "atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e reguladores aplicáveis".
Segundo o Ministério Público de São Paulo, porém, o banco renunciou à administração do fundo Radford e liquidou os CDBs logo após a primeira fase da operação. Os investigadores apontam o movimento como tentativa de se desvincular do esquema.
O ex-diretor do Genial Humberto Arthur Tupinambá Neto é um dos alvos da operação. O banco informou que ele deixou o cargo em maio.
O que acontece agora
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou em coletiva nesta quinta que a movimentação identificada soma R$ 11,6 bilhões e ligou o esquema ao caso do Banco Master.
Segundo ele, a Entre Investimentos, do empresário Antônio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, funcionou como lavanderia do grupo. Freixo é apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e já assinou delação premiada com a PGR.
A apuração segue sob o Gaeco e a Receita Federal, sem data prevista para denúncias formais contra os novos alvos.
A operação atualiza o caso que a TV Sim Brasil mostrou pela manhã, quando o Genial negou ser investigado.
Primo e Beto Louco, apontados como chefes do esquema, já haviam sido denunciados em setembro por lavagem via usinas de açúcar. Freixo aparece também no caso das viagens de jatinho ligadas a Vorcaro.





























