A Cúpula do BRICS, em Nova Délhi, divulgou neste sábado (12) um comunicado que expressa "séria preocupação com o uso crescente de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais". O texto não cita nominalmente os Estados Unidos nem Trump. O Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira: Lula ficou no país fazendo campanha à reeleição.

O comunicado, divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da Índia, diz que esse tipo de medida "distorce o comércio e é incompatível com as regras" da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A linguagem indireta reflete a cautela do bloco em nomear adversários comerciais diretamente, mesmo quando o alvo é evidente para os países afetados.

Lula é o único entre os cinco fundadores do BRICS ausente do encontro. Putin, Xi Jinping, Narendra Modi e Cyril Ramaphosa estão todos em Nova Délhi.

É a segunda vez, desde a criação do bloco, que os cinco líderes não se reúnem juntos, depois da cúpula de 2019, em Brasília. Xi volta à Índia após sete anos, com delegação de 400 pessoas.

Putin retorna ao bloco depois de faltar em 2025 por causa do mandado do Tribunal Penal Internacional (TPI). À margem do encontro, ele se reúne com a brasileira Dilma Rousseff, presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS.

O banco já aprovou US$ 7 bi em projetos no Brasil, e a conversa trata do financiamento de obras russas pelo NDB.

Por trás do texto único, o bloco chegou dividido. A divergência entre Irã e Emirados Árabes Unidos, segundo o jornal O Tempo, havia travado um comunicado do BRICS neste ano, e a Rússia temia repetir o impasse na Índia.

Soma-se a tensão de fronteira entre China e Índia, que quase escalou para confronto.

O governo brasileiro chega à cúpula com expectativa deliberadamente baixa. Fontes diplomáticas dizem que "o encontro deste ano não deve ter grandes avanços", e atribuem a cautela à expansão do bloco a 11 membros desde 2024.

Mauro Vieira, em discurso, disse que o BRICS "se consolidou como plataforma para promover intercâmbios entre economias dinâmicas e prósperas do mundo".

Por que a menção a tarifas interessa ao Brasil

Interessa porque o Brasil enfrenta uma combinação de tarifas dos Estados Unidos que soma até 37,5% sobre calçados, têxteis, móveis, etanol e máquinas. São 25% em vigor desde 22 de julho, mais uma sobretaxa de 12,5% aplicada um dia depois.

A sobretaxa citou suposta falha do país no combate ao trabalho forçado; café, carne bovina e minérios foram isentados. A tarifa de Trump, de 50%, tinha sido derrubada pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro, por extrapolar a autoridade presidencial.

O governo americano reabriu o caso por outra via e reimpôs a cobrança em julho. O Brasil chamou a nova tarifa de discriminatória em reunião com autoridades dos EUA, e o caso está na OMC.

A queixa do BRICS contra medidas "unilaterais" segue a linha que o Itamaraty usa desde agosto, quando Lula ligou para Trump para dizer que as tarifas eram infundadas.

O que acontece agora

A cúpula se amplia neste domingo (13) a parceiros e convidados, sob o tema "Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade". Lula só deve ter outro compromisso internacional na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, 12 dias antes do 1º turno, em 4 de outubro.