A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alertou nesta segunda-feira (24) contra o uso de canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes sem indicação e acompanhamento médico. Segundo a entidade, o uso estético em quem já está no peso adequado pode causar déficit de crescimento, pancreatite aguda e transtornos alimentares.
Em nota, a SBP lista riscos do uso sem supervisão: déficit de crescimento, desidratação, perda de massa muscular, pancreatite aguda e problemas na vesícula. Cita também hipoglicemia e, no ajuste de dose, náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e constipação.
"As chamadas canetas emagrecedoras não devem ser utilizadas por adolescentes com peso adequado simplesmente para modificar a aparência corporal", afirma a nota da SBP.
A entidade destaca que o uso estético pode ser gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. Também lista contraindicações absolutas: histórico de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, gestação e amamentação.
Quando o uso é legítimo
O alerta não significa que a classe de medicamentos seja proibida para menores de idade. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a semaglutida injetável para tratar obesidade a partir dos 12 anos, sob prescrição médica.
A Anvisa também já aprovou outro GLP-1 para adolescentes com diabetes tipo 2. Abaixo dos 12 anos, a prescrição de semaglutida só ocorre fora da bula, em casos pontuais e com evidência científica limitada.
A distinção que a SBP faz é direta. Tratar obesidade ou diabetes diagnosticados é uso médico. Emagrecer por padrão estético, sem diagnóstico, não é.
Por que a procura cresce
A obesidade infantil tende a persistir na adolescência e atinge 38% dos brasileiros de 5 a 19 anos, segundo a Federação Mundial de Obesidade. A entidade estima 12,5% das meninas e 18% dos meninos obesos no país.
A entidade projeta que, até 2035, 1 em cada 3 crianças e adolescentes brasileiros pode viver com a doença. É esse cenário que sustenta a demanda legítima pelo tratamento, e também alimenta a procura estética fora dele.
O mercado brasileiro de canetas emagrecedoras movimentou R$ 13,3 bilhões em um ano, e a projeção é de que o valor quase dobre em 2026, perto de R$ 20 bilhões, com a chegada de genéricos.
O genérico da semaglutida deve derrubar o preço do Ozempic no país, o que barateia o acesso justamente na faixa em que a supervisão médica mais importa.
Esse mesmo barateamento tem um lado de risco. O contrabando de canetas emagrecedoras cresceu 1.446% no Brasil, alimentado por produtos sem registro na Anvisa. A SBP contraindica explicitamente preparações clandestinas, manipuladas ou importadas sem essa procedência.
O que acontece agora
A Anvisa exige receita em duas vias para essas medicações, com uma cópia retida na farmácia. A recomendação da SBP aos pais é buscar avaliação pediátrica antes de qualquer uso, nunca comprar o produto por conta própria.


























