O Ministério Público Federal move ação civil pública contra a empresa White Solder, acusada de lavar pelo menos R$ 200 milhões em cassiterita extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami entre 2020 e 2025. O minério teria abastecido a cadeia de fornecimento de Apple, Amazon, Microsoft, Sony e Disney.

Segundo a ação, viraram réus a White Solder, a Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin) e sócios das empresas. A White Solder tem sede em Ribeirão Preto (SP), com filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO).

Registros da Polícia Federal usados no processo mostram que, só entre maio e agosto de 2021, mais de 525 toneladas de cassiterita saíram ilegalmente da Terra Yanomami e do Parque Nacional Campos Amazônicos.

Como o esquema lavava o minério

O intermediário Nelcides de Almeida Mello registrava a cassiterita ilegal com documentos falsificados emitidos pela Coopertin, segundo o MPF.

A cooperativa mantinha sede fictícia em Boa Vista (RR), sem funcionários, para emitir notas fiscais que simulavam origem em minas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM).

O esquema movimentou pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. O sócio da White Solder Alessandro Torrente recebeu R$ 2,6 milhões em repasses, segundo apurações que embasam a ação.

A Forja de Hefesto é a maior operação que já foi feita com relação ao combate à mineração ilegal de cassiterita na Amazônia

afirma o procurador do MPF André Luiz Porreca, sobre a operação da Polícia Federal de dezembro de 2023 que embasa parte da nova ação.

"O garimpo é uma atividade industrial muito poderosa, uma estrutura organizada e milionária que destrói a vida", afirma Dário Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami.

O MPF pede R$ 1,7 bilhão em reparações por danos ambientais, patrimoniais e coletivos ao povo Yanomami, cobrança que, segundo o Ministério Público, tem caráter pedagógico.

A cassiterita processada vira estanho usado em componentes eletrônicos (inclusive chips de inteligência artificial), elo que liga o garimpo ilegal na Amazônia ao topo da cadeia global de tecnologia.

Apple, Amazon, Microsoft, Sony e Disney aparecem nas apurações como destino final dessa cadeia de fornecimento.

Nenhuma das cinco empresas foi listada como ré nem se pronunciou sobre a origem do minério até a publicação desta reportagem. White Solder e Coopertin também não se manifestaram sobre a ação.

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O caso corre enquanto o Brasil tenta se firmar como fornecedor global de minerais estratégicos, pano de fundo da disputa por terras raras entre Brasil, China e Estados Unidos.

A mineração ilegal em terra indígena já motivou decisões do STF. Em uma delas, a Corte fixou prazo de 24 meses para regular o tema.

Em outra, o STF exigiu plano para retirar garimpeiros ilegais de terras indígenas no Mato Grosso e em Rondônia.

O que acontece agora

A ação civil pública tramita na Justiça Federal de Roraima, e os réus ainda vão apresentar defesa antes de qualquer decisão sobre os R$ 1,7 bilhão pedidos pelo MPF.

Na esfera criminal, a Operação Forja de Hefesto já resultou em condenação. Rodrigo Cataratas foi considerado culpado em 30 de janeiro de 2026.

O que as gigantes de tecnologia ainda não explicaram

As cinco empresas apontadas como destino final da cadeia de fornecimento não são rés no processo e não se manifestaram sobre a origem do estanho que compram.

O esquema, segundo o MPF, simulou documentação de origem legal por cinco anos sem ser percebido. Fica em aberto quanto essas empresas sabiam, ou perguntavam, sobre a procedência do minério que chegava até elas.