Um mercado clandestino vende credenciais roubadas de servidores públicos para invadir sistemas da Justiça, dos Detrans e da Defesa Civil, mostrou investigação do Fantástico exibida neste domingo (30). No Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), os criminosos já fizeram 350 acessos fraudulentos e alteraram cerca de 140 mandados de prisão no banco nacional.

Durante um mês, a reportagem acompanhou grupos que negociam login e senha de servidores em fóruns e aplicativos de mensagem. Os preços variam: R$ 100 por um acesso à Secretaria de Segurança do Paraná e R$ 500 por um login da Justiça de Santa Catarina.

Para alterar um processo ou retirar um mandado de prisão, o valor sobe a R$ 1 mil. Nos Detrans, os criminosos oferecem apagar multa cobrando metade do valor da infração.

Percebemos que é funcional. O que eles prometem, eles conseguem fazer.

afirmou Fábio Costa Pereira, procurador de Justiça do Rio Grande do Sul, depois que o Ministério Público testou as credenciais com autorização.

Em Goiás, a Divisão de Inteligência do TJGO identificou ordens de bloqueio fraudulentas e, ao vasculhar o Banco Nacional de Mandados de Prisão, encontrou cerca de 140 adulterações. Eram ordens com dados errados que poderiam mandar uma pessoa inocente para a cadeia.

"Credenciais de acesso subtraídas de servidores ou dos próprios magistrados têm sido utilizadas para poder fraudar, inserir, alterar ou excluir, inclusive ordens de prisão dos bancos nacionais", disse Sabrina Leles, delegada da Polícia Civil de Goiás.

A polícia prendeu um casal suspeito de participar das invasões; os dois respondem ao processo em liberdade.

A mesma engrenagem está por trás de um episódio já conhecido isoladamente, o alerta falso disparado pelo sistema da Defesa Civil na madrugada de 20 de junho, que levou a palavra "misantropia" a milhões de celulares.

Segundo o Fantástico, o disparo usou login e senha de dois bombeiros do Pará sem autorização.

No Pará, um projeto da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) monitora esses vazamentos e encontrou 18 bilhões de dados expostos só em 2026. Os próprios rastros que os criminosos deixam ao anunciar a venda viram munição para a polícia pedir busca e apreensão.

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O trabalho já resultou em mandados de prisão, segundo a delegada Vanessa Lee, da Polícia Civil do Pará.

Nem todos os órgãos citados nas ofertas confirmam invasão. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina dizem ter reforçado a proteção com autenticação multifator e controle de acesso.

Já o Ministério da Saúde e a Receita Federal informaram não ter identificado evidências de ataque a seus sistemas.

O que acontece agora

O material do Fantástico foi entregue ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que já investigava os grupos antes da reportagem. O Telegram diz proibir a rede criminosa conhecida como "The Com"; o Discord afirma vetar a venda de credenciais roubadas em suas regras.

O caso reacende um problema que a Justiça eleitoral já enfrentou este ano. Em julho, o TSE suspendeu o sistema de filiação partidária após uma fraude semelhante.

Em agosto, a Polícia Federal deflagrou a Operação Mamon contra fraude em contratos públicos de saúde em três estados.