O corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell, afastou na quarta-feira (12) o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho da falência do Banco Santos, na 2ª Vara de Falências de São Paulo. A decisão, sob sigilo, veio após o Estadão revelar gravação de 2024 em que o juiz sugeriu aos herdeiros de Edemar Cid Ferreira vender o banco ao Master.

A gravação, de 45 minutos, registra um encontro em 22 de agosto de 2024 no gabinete do juiz, oito meses após a morte de Edemar Cid Ferreira.

Participaram os três filhos do banqueiro, Rodrigo, Eduardo e Leonardo, e o administrador judicial Fernando Borges, sem advogados das partes nem Ministério Público.

Dois peritos contratados pelo Estadão confirmaram que o áudio não foi manipulado.

No encontro, segundo a gravação, Furtado sugeriu a venda das participações da família no Banco Santos ao Banco Master, então controlado por Daniel Vorcaro.

O juiz também indicou nomes de advogados para substituir a defesa dos herdeiros, entre eles Eduardo Munhoz, Marcelo Adamek e Francisco Satiro, e mencionou a possibilidade de um acordo para encerrar a falência e as ações contra a família.

Furtado nega qualquer irregularidade. Segundo suas manifestações no processo, o juiz afirma dar "atendimento igualitário" às partes e diz que suas decisões já foram confirmadas por instâncias superiores.

Ele também defendeu a contratação da esposa do administrador Vânio Aguiar para a massa falida, alegando não haver impedimento legal.

O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão e o advogado Willer Tomaz foram os primeiros a levar as suspeitas contra o magistrado ao CNJ, com petições que apontavam falhas na condução do processo.

O que já havia sido decidido em julho

Furtado escapou de um primeiro pedido de afastamento em 11 de julho, quando Campbell já havia suspendido a falência do Banco Santos e afastado o administrador judicial Vânio César Pickler Aguiar.

O corregedor apontou oscilações contábeis injustificadas, ausência de auditoria independente e contratação de empresas ligadas ao próprio administrador.

O espólio também questionava o desaparecimento de R$ 12 bilhões em ativos e a destruição de documentos num incêndio. O pedido para afastar o próprio juiz foi negado na ocasião. Ele só saiu do caso um mês depois, sob o peso da gravação.

O comprador que o juiz sugeriu aos herdeiros

O Banco Master, destino sugerido pelo juiz para as participações da família, foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.

A liquidação do Master e do Will Bank deixou rombo de cerca de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos, o maior da história do país.

Daniel Vorcaro, então controlador do banco, foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos em 17 de novembro de 2025.

Ficou detido 11 dias, até ser solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

O Banco Santos quebrou em 2004, após intervenção do Banco Central. A falência de Edemar Cid Ferreira, banqueiro condenado e morto em 2024, já dura mais de duas décadas.

O que o sigilo ainda esconde

Os termos exatos da decisão que afastou Furtado não foram divulgados. Também não está claro se o CNJ vai abrir processo disciplinar formal ou se a saída se limita a este processo.

Com o administrador e agora o juiz fora do caso, fica a pergunta de quem assume uma falência que já consome duas décadas.