O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou nesta quarta-feira (9) a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro", operador financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro. Freixo Júnior relata ter repassado R$ 69 milhões a um fundo que financiou o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro.

A decisão de Mendonça saiu um dia depois de Freixo Júnior participar de audiência no gabinete do ministro, onde confirmou que fechou a delação por vontade própria. A PGR havia fechado o acordo no início de setembro, e agora ele passa a valer nas investigações.

Dono da Entre Investimentos, empresa que Vorcaro usava para movimentar recursos, Freixo Júnior diz ser responsável por "gerar" dinheiro em espécie para a equipe do banqueiro, entregue em malas para pagamento de propina.

Segundo a delação, o fundo Havengate recebeu os repasses e financiou a produção do filme sobre o ex-presidente. O orçamento pedido a Vorcaro chegava a US$ 24 milhões (R$ 134 milhões); a BBC News Brasil apurou US$ 12,3 milhões já transferidos ao projeto.

O que Flávio e Eduardo Bolsonaro dizem

Procurado, o senador nega irregularidade nos repasses. "Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Vorcaro é mentiroso", disse Flávio, que já vinha negando o caso publicamente desde agosto e chamou o episódio de "página virada" em entrevista à GloboNews.

Eduardo Bolsonaro também nega ter recebido vantagem financeira do banqueiro. "Não exerci nenhum cargo de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem", afirmou.

A negativa contrasta com documentos que o identificam contratualmente como produtor executivo do filme. Ele nega, porém, ter sido responsável pelas finanças da produção.

A campanha de Flávio já havia se debruçado sobre o caso antes de a delação virar pública. Em junho, a equipe revisou a estrutura do Havengate e concluiu que não havia irregularidade nas transferências, todas feitas por sistema bancário com supervisão do Coaf.

Essa apuração prévia é o que explica a reação tranquila da campanha à homologação: ela já sabia o que a delação poderia revelar.

Por que o filme não estreia antes da eleição

O filme não chega aos cinemas antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Wilson Feitosa, diretor-geral da Europa Filmes, distribuidora responsável pelo longa, confirmou que o lançamento fica para depois da votação.

"Acho que contamina, e poderemos ter problemas de judicialização no Brasil", afirmou Feitosa, sem cravar uma data.

A distribuidora não tem interesse na disputa eleitoral. Sua preocupação é comercial: evitar que a estreia vire munição de campanha ou alvo de ação na Justiça Eleitoral.

A delação de Freixo Júnior ainda deixa pontos sem resposta: se parte do dinheiro de Vorcaro bancou a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, até quando os pagamentos duraram e como a produtora GoUp foi escolhida para tocar o projeto.

O que acontece agora

A delação homologada pode ser usada pela Polícia Federal em outras frentes da investigação sobre o Banco Master, cujo rombo já soma R$ 12 bilhões desde a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.

O STF confirmou sessão plenária para 15 de setembro para discutir o conjunto da crise aberta pelo caso. A data de estreia do filme segue sem previsão oficial.