O cientista político Luís Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que não há cenário tranquilo para a democracia brasileira no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, seja qual for o vencedor. A avaliação foi dada à RFI nesta terça-feira (6).

Reeleito, Lula deve ficar incapaz de indicar ministros ao Supremo Tribunal Federal, porque o Senado tende a travar as indicações. Vitorioso, Flávio pode usar a força do PL no Congresso para avançar pauta de costumes e meio ambiente, avalia Miguel.

Nos dois cenários, a disputa de poder entre Executivo e Legislativo continua depois do 25 de outubro, segundo o cientista político.

É de se esperar que Lula se torne incapaz, se reeleito, de indicar ministros para o Supremo Tribunal Federal. E ainda mais claro, se Flávio Bolsonaro ganhar, a tentativa da extrema direita de caminhar para uma destruição do arcabouço democrático, das garantias constitucionais. Então, não existe, no horizonte próximo, um cenário tranquilo para a democracia brasileira.

O segundo turno ocorre no dia 25 de outubro. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%, segundo o TSE.

Por que a eleição pode depender de quem não votou no 1º turno?

A eleição pode ser decidida por quem ficou de fora no primeiro turno. Abstenção, votos em branco e nulos somaram 39,4 milhões de eleitores, 24,85% do eleitorado apto, a maior abstenção em um 1º turno presidencial desde 1998, segundo o TSE.

O dado já havia sido apontado pelo TSE como recorde desde 1998.

Para Miguel, nenhuma eleição presidencial brasileira jamais reverteu o resultado do primeiro turno no segundo. Isso torna a mobilização dos eleitores ausentes decisiva para uma eventual virada de Lula.

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A disputa também passou para as redes sociais. Miguel observa que praça pública e programa eleitoral perderam espaço como palco de convencimento para templos religiosos e redes sociais, movimento que, segundo ele, a esquerda não acompanhou bem.

"Houve um trabalho árduo nos últimos anos nas redes sociais, principalmente com os jovens", diz o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que recebeu orientação em 2021 para fazer trabalho de base.

Hoje, Ferreira é o deputado federal mais votado da história, com cerca de 3 milhões de votos no estado, à frente de Lucas Pavanato (PL-SP), que teve votação semelhante em São Paulo.

Do outro lado do espectro, a deputada Ana Elisa (PT-MG), eleita aos 21 anos, defende que a esquerda amplie a presença de novos nomes nas redes. "Se você não tiver presença nas redes sociais... as pessoas vão acreditar" em narrativas negativas, afirma.

O tema já havia aparecido em pesquisa sobre solidão e redes sociais como fator de abstenção eleitoral, publicada antes do primeiro turno.

Miguel lembra que o governo Lula avançou em medidas populares, como o fim da escala 6x1 e a proibição das apostas online, mas não conseguiu transformar isso em votos no primeiro turno.

O tema segue na pauta. O Senado começou a debater o fim da escala 6x1 antes do segundo turno.

O que acontece agora

Até a votação, os dois candidatos devem disputar o eleitorado que ficou fora das urnas no primeiro turno, fatia que Miguel considera decisiva para o resultado final.