O consultor político Abel Lumer avalia que Lula tem uma tarefa difícil, mas não impossível, no segundo turno de 25 de outubro contra Flávio Bolsonaro: desde a redemocratização, nunca houve virada do primeiro para o segundo turno em eleição presidencial. Em entrevista à repórter Mariana Reis, da TV Sim Brasil, ele analisou o crescimento do candidato do PL, o peso das abstenções e o desgaste do presidente.

Frustração e antipetismo explicam a alta de Flávio

No primeiro turno, Lula teve 45,16% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 47,03%, uma diferença de pouco menos de 2,228 milhões de votos. Flávio teve mais votos do que o pai, Jair Bolsonaro, na mesma etapa das eleições de 2018 e 2022.

Para Lumer, esta é a "eleição da frustração". "O eleitor está basicamente frustrado, ele já fez todas as apostas eleitorais que estavam no cardápio para ele", disse.

O consultor sustenta que o fator decisivo para o desempenho de Flávio é o antipetismo: "Não é exatamente o bolsonarismo que está fazendo essa eleição, e sim o antipetismo". Segundo ele, nas simulações de segundo turno, outros candidatos de direita aparecem com intenção de voto muito próxima da de Flávio quando enfrentam Lula.

A força do sobrenome Bolsonaro

Michelle e Carlos Bolsonaro foram eleitos para o Senado, ela pelo Distrito Federal e ele por Santa Catarina. Jair Renan se elegeu deputado federal, assim como Renato Bolsonaro, irmão de Jair Bolsonaro.

"É um ativo político muito grande, sem dúvida", afirmou Lumer. Ele lembra que, por volta de 2015 e 2016, havia "uma demanda reprimida do eleitorado conservador no Brasil que nunca se viu representado", espaço que Jair Bolsonaro passou a ocupar.

Virada difícil e o peso da abstenção

Sobre a chance de inversão do resultado, Lumer não descarta a reação do presidente. "Claro que não é impossível. Lula é o maior líder popular da história da redemocratização", disse. Mas ele avalia que há poucos votos disponíveis: os eleitores de Ronaldo Caiado, de Renan Santos e a parcela que votou em Romeu Zema tendem a migrar majoritariamente para Flávio.

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Para o consultor, se a campanha petista mantiver a mesma estratégia e o mesmo discurso, não há como virar. Só uma mudança grande, com diálogo com setores da sociedade que Lula não conseguiu alcançar nos últimos quatro anos, abriria caminho.

No primeiro turno, 21% do eleitorado apto não votou, o equivalente a 33,4 milhões de pessoas. "Vai ter que ser uma mobilização muito grande", avaliou Lumer, que lembrou que a abstenção está ligada às faixas de menor escolaridade e renda, justamente onde Lula tem vantagem sobre Flávio.

Caso Master não tirou votos

Em meados de setembro, uma pesquisa Datafolha mostrou que 36% dos eleitores consideravam que a crise do STF e o escândalo do Banco Master influenciariam o voto para presidente. Na prática, 16 candidatos ao Executivo e ao Legislativo que tiveram algum envolvimento com Daniel Vorcaro foram eleitos, e Flávio esteve no centro do escândalo.

Para Lumer, o resultado não surpreende. "O brasileiro está anestesiado em relação à corrupção", afirmou. "A corrupção, infelizmente, ela não tira voto numa eleição majoritária."

Questionado sobre as mensagens de WhatsApp divulgadas pelo portal Platô BR, supostamente enviadas por um ex-sócio de Flávio Bolsonaro e que mostrariam o candidato em festas com prostitutas, o consultor disse não acreditar em impacto eleitoral. "Mariana, você sabe que eu acho que não", respondeu. Para ele, "a vida privada, quando usada nesse nível, ela acaba vitimizando o alvo".

Desgaste de Lula e a vantagem digital da direita

Lula recebeu 3,4 milhões de votos a menos do que em 2022. "Eu realmente acho que há um desgaste natural do Lula com o tempo", disse Lumer, que também vê distância entre o governo, que considera o mais à esquerda dos três mandatos do petista, e os eleitores que ele precisaria conquistar.

A entrevista também tratou do deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, que se tornou aos 30 anos o deputado federal mais votado da história do país, com forte presença nas redes sociais. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, atribuiu a vantagem da direita aos algoritmos da Meta.

Lumer discorda. "Será que é algoritmo ou será que o Nikolas está realmente falando uma linguagem que as pessoas querem ouvir?", questionou. Para ele, é inevitável que Nikolas chegue um dia à Presidência: "Ele não chegou a três milhões de votos por acaso".

O segundo turno entre Flávio Bolsonaro, do PL, e Lula, do PT, será no dia 25 de outubro.