O Banco Central cortou a Selic para 14% ao ano em agosto, o quarto corte seguido em 2026. Mas os juros cobrados das famílias no crédito livre chegaram a 64% ao ano em junho, segundo o próprio BC. O descompasso ajuda a explicar por que o crédito não fica mais barato no bolso do consumidor.

O spread bancário, a diferença entre o custo de captação dos bancos e o que cobram do cliente final, é o principal responsável pela distância entre os dois números.

No Brasil, o spread chegou a 34,6 pontos percentuais em março, segundo levantamento comparativo entre países. A média mundial fica perto de 6 pontos percentuais.

O país segue no topo do ranking global de spread bancário.

O que os bancos dizem

"Os juros estão em patamares muito elevados. Nenhum de nós deseja manter esse patamar, porque leva ao aumento do endividamento das famílias", disse Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em maio.

Sidney atribui o problema à inadimplência alta, que obrigaria o setor a cobrar mais de quem paga em dia para compensar quem não paga.

Segundo ele, 80,4% do estoque de crédito das famílias está em linhas de longo prazo, consideradas saudáveis. Só 17% está em crédito de curto prazo, o segmento mais crítico.

A outra leitura do problema

A economista Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), contesta essa lógica: "a inadimplência pode ser uma consequência dos juros elevados", e não o contrário.

Pela leitura dela, é o juro alto que empurra a família para o atraso, não o oposto.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, com 29,8% em situação de inadimplência.

O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, aposta na queda da Selic como alívio gradual: "a decisão de reduzir os juros básicos tende a contribuir para a diminuição do custo das novas operações de crédito".

Um ciclo sem consenso sobre a causa

Bancos e economistas concordam que o endividamento das famílias está em recorde, mas discordam sobre o que vem primeiro: o juro alto ou a inadimplência que o justificaria.

Enquanto esse debate não se resolve, quem sente o descompasso entre a Selic e o boleto é o consumidor, no intervalo entre a taxa que o Banco Central anuncia e a que o banco cobra.