A gasolina vendida no Brasil passou neste mês a ter 32% de etanol na mistura, alta de dois pontos percentuais em relação ao E30 vigente desde 2025. O aumento, prevista pela Lei do Combustível do Futuro, virou alvo de crítica do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Flávio comparou o novo percentual a uma "reduflation" (a prática de reduzir a quantidade de um produto mantendo o preço, comum em embalagens de alimentos).

Ele defende revisar o índice e diz que vai buscar "outras formas de incentivar o setor de etanol".

O que o setor de etanol respondeu

Seis entidades do setor (Unica, Unem, Bioenergia Brasil, Feplana, Unida e Orplana) divulgaram nota conjunta repudiando a fala.

Para as entidades, a declaração "desinforma o consumidor e desqualifica uma política de Estado construída ao longo de cinco décadas", sustentada por governos de diferentes orientações políticas, do Proálcool ao RenovaBio.

O contraponto mais direto veio de um lembrete: Flávio participou das discussões da Lei do Combustível do Futuro no Senado.

Ele votou a favor do texto que estabeleceu o cronograma de aumento do etanol na gasolina, o mesmo cronograma que resultou no E32 que ele agora critica.

Uma política de 95 anos

A mistura de etanol na gasolina não nasceu com o Proálcool.

A primeira lei brasileira a exigir a adição de etanol anidro à gasolina é de 1931, quando o percentual obrigatório era de apenas 5%.

O Proálcool, criado em 1975 após a crise do petróleo, elevou a mistura para a faixa de 20% a 25% na década de 1980, período em que os carros a álcool chegaram a responder por cerca de 90% das vendas de veículos novos no país.

Nos anos 1990, a Lei nº 8.723 fixou o percentual em 22%, com variação permitida entre 18% e 27,5%. Depois vieram os 25% em 2007, os 27,5% em 2015, os 30% em 2025 e agora os 32% em 2026.

Alterar o percentual de etanol na gasolina não depende de decisão isolada de um governo: a Lei do Combustível do Futuro fixa o cronograma, e uma mudança exigiria nova tramitação no Congresso.

Enquanto isso não acontece, o E32 segue valendo nos postos do país, e a distância entre o que Flávio criticou e o que ele mesmo votou continua sendo o centro da polêmica.

O que fica em aberto

O episódio expõe uma tensão que a política brasileira dos biocombustíveis carrega desde 1931: o cronograma de mistura é definido por lei, votado no Congresso, mas o efeito prático dele no preço da bomba vira alvo de crítica política a cada novo patamar.

Fica em aberto se o debate vai se traduzir em proposta concreta de revisão do índice, ou se permanece apenas como crítica de campanha a uma lei que o Congresso, incluindo o próprio autor da crítica, já aprovou.